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L. v. Beethoven cerca de 1796 | Fonte: Wikimedia Commons

16/09/2020

O Pianista Beethoven


Os primeiros concertos para piano de Ludwig van Beethoven coincidem com as suas primeiras composições para orquestra. Afinal, em princípio de carreira, quando procurava singrar na competitiva cidade de Viena, o seu prestígio como pianista dava-lhe confiança para aventurar-se no domínio orquestral – e todos sabemos o quanto deu frutos! O Concerto para Piano N.º 1 não esconde a influência dos concertos de Mozart. Mas nele já se distingue a atração pela grandiosidade, quer na extensão dos andamentos quer no uso ostensivo dos metais e dos tímpanos.

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A figura do pianista virtuoso que se apresenta por iniciativa própria em salas de concerto espalhadas por diferentes cidades é-nos hoje bastante familiar. Concertos para piano de Mozart, Beethoven, Liszt e Rachmaninov são deste modo tocados diante de plateias entusiastas. E tudo parece natural, como se existisse desde sempre. Foi, porém, um caminho desbravado por aqueles primeiros dois compositores, os quais nas últimas décadas do século XVIII tudo fizeram para se tornarem independentes da rotina imposta pelo serviço a um patrono único. Beethoven foi relativamente mais bem sucedido do que Mozart. Desde que se instalou definitivamente em Viena, em finais de 1792, conquistou a pulso o reconhecimento público, em grande medida graças às suas competências enquanto pianista, capaz de improvisar brilhantemente e de explorar com destreza os recursos técnicos dos novos pianos da época. Nos primeiros anos, as suas apresentações tinham lugar no contexto privado dos salões da nobreza. Depois, arriscou fazer digressões pelas mais importantes cidades daquela região da Europa. Numa dessas viagens, em outubro de 1798, tocou em Praga os seus dois primeiros concertos para piano. Existem testemunhos da época que nos permitem saber como decorriam esses eventos. Num deles, Beethoven tocou o Concerto para Piano em Dó Maior. Tocou, ainda, andamentos de uma sonata e improvisou sobre uma melodia de Mozart com que foi desafiado no momento. O sucesso foi enorme. Já havia tocado o mesmo concerto três anos antes em Viena, numa versão provisória. Mas a estreia pública vienense só aconteceu em 1800, num concerto realizado no Burgtheater. Nessa ocasião, Beethoven juntou-lhe o Septeto Op. 20 e a Sinfonia N.º 1, num programa que ainda incluiu uma sinfonia de Mozart e excertos d’A Criação de Haydn.

Na verdade, este não foi o primeiro concerto composto por Beethoven. Aquele que conhecemos hoje como N.º 2 é anterior. Para lá disso, alguns anos antes o então jovem pianista com treze anos de idade já havia composto um outro concerto, do qual só nos chegou a partitura da parte de piano. Esta consiste, fundamentalmente, numa demonstração de competências técnicas. Os concertos que hoje conhecemos por N.º 1 e N.º 2, em Dó Maior e Si Bemol Maior, foram publicados em 1801, assim indicando uma numeração inversa à respetiva ordem cronológica.

O Concerto N.º 1 começa com tranquilidade, como se quisesse prender a atenção. Mas logo se torna afirmativo e cerimonioso, articulando a parte de solista com um registo sinfónico imponente. O segundo andamento é um momento contemplativo, para o qual muito contribui a proeminência tímbrica do clarinete, o qual, na vez das flautas ou do oboé, surpreende num diálogo que estabelece com o piano. É no terceiro andamento que podemos identificar mais facilmente a assinatura de Beethoven, com a sofisticação harmónica e expressiva que lhe é própria.

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