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Dossiê Informativo para os Docentes - O Compositor

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Ciclo de 4 Concertos «Ouvir Duas Vezes»

[Dossiê Informativo para os Docentes]
Tema do Quarto Concerto: O Compositor

Quinta, 23 de abril, 11h00
Sexta, 24 de abril, 11h00
Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa
[Temporada de Música da Metropolitana 2025/2026]

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Luís Tinoco
 Convidado Especial 
Rui Campos Leitão Apresentação
Pedro Neves Direção Musical

Duração aproximada: 1 hora
10h30: Abertura de Portas
11h00: Concerto de música intercalada com intervenções faladas
[Está previsto um momento de cerca de 5 minutos em que os alunos são convidados a colocar as suas perguntas ao compositor Luís Tinoco]
12h00: Fim

Obras Musicais Interpretadas
Luís Tinoco Zapping
Luís Tinoco Before Spring

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O Compositor

Quem inventa as músicas que as orquestras tocam? Pois é. Por trás de cada acorde, cada melodia e cada ritmo, há alguém com uma criatividade incrível, capaz de produzir músicas que não existiam antes. Esse alguém é o compositor! Para compreendermos melhor o que um compositor realmente faz, convidámos para este concerto Luís Tinoco, professor de Composição e autor de óperas, bailados, obras orquestrais, música de câmara… Numa conversa informal, e em articulação com duas composições suas – Zapping e Before Spring – interpretadas ao vivo pelos músicos da Orquestra Metropolitana de Lisboa, vamos querer saber como é que, afinal, nascem e crescem as obras musicais.

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A Imaginação Musical

A composição musical é um processo criativo que junta imaginação, memória, emoções, decisões conscientes e muito conhecimento técnico. Mas há nela algo misterioso. É bom lembrar que nenhuma das músicas de que mais gostamos existia antes de ser «inventada». Afinal, de onde é que elas surgem? Há quem lhe chame inspiração. Há quem lhe chame talento. Há quem lhe chame trabalho. Há respostas para todos os gostos. O que é certo é que alguém se deu ao «luxo» de sonhar acordado, de imaginar ritmos e melodias, estruturas sonoras mais ou menos complexas e dispositivos sonoros que permitem expressar «alguma coisa». Por mais que o ouvinte queira acreditar que este é um exercício espontâneo, natural e autêntico, a verdade é que a imaginação musical é um músculo que se treina. É preciso aprender a cultivá-lo e deixar as ideias crescerem; seja introspetivamente, seja ao piano, em colaboração com outros músicos, num computador… seja lá como for!

Depois vem uma fase que é, porventura, ainda mais difícil. É preciso saber o que fazer quer com as pequenas, quer com as grandes ideias. Há que transformá-las num pensamento musical organizado, capaz de se instalar e evoluir ao longo do tempo. Durante este processo, fazem-se escolhas. Muitas são rejeitadas. Outras ficam a aguardar melhor oportunidade. O processo de criação musical exige, portanto, a tomada de decisões, muitas das quais são de ordem prática. Por exemplo, pode não fazer sentido compor para uma grande orquestra quando se tem apenas uma guitarra à disposição – há sempre limites de ordem logística. Em simultâneo, existe o apelo das emoções. Por mais racionais que possam parecer, aquelas decisões resultam de necessidades e encantamentos que também são condicionados pelas emoções – o papel das emoções não pode ser descurado no processo criativo. Por fim, entre muitos mais fatores envolvidos, há um que é determinante. A quem é que a música se dirige? A que contexto? É certo que o compositor não controla o rumo que a sua música toma após a estreia. No entanto, existe (quase sempre) a idealização de um ouvinte que a justifica. Nos limites, esse ouvinte pode ser tanto o próprio autor como todos os mundos e todos os tempos.

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Ser Compositor

No «mundo ocidental», o exercício da composição musical evoluiu muito lentamente ao longo da História. Na Idade Média os compositores eram figuras anónimas – monges ou trovadores ligados à Igreja ou às cortes – que criavam música para diversas funções. Com o tempo, ganharam reputação, identidade própria, sobretudo a partir do surgimento da notação musical. Muitos distinguiram-se como profissionais especializados e, com a instituição da ideia de repertório, começaram a assinar as obras. Foi sobretudo no período de transição do século XVIII para o século XIX que se consolidou a ideia de Compositor que prevalece ainda hoje. A importância dos conservatórios, a música enquanto bem transacionável em partituras e espetáculos públicos, o culto da personalidade artística, o público melómano – estes são apenas alguns dos inúmeros fatores que provocaram a mudança. Nas últimas décadas, embora persistam os traços da tradição, o panorama musical tem-se transformado de forma significativa. Muitos compositores que se reconhecem herdeiros da herança clássica continuam a nutrir um marcado interesse pela experimentação; outros conferem nova vida a sonoridades do passado; e há ainda quem combine estilos diversos, frequentemente em diálogo com as culturas populares que hoje dominam a paisagem sonora. Hoje, ser compositor implica enfrentar desafios enormes. A concorrência com os mestres consagrados do passado torna-se quase inevitavelmente desigual no contexto das programações das salas de concerto. Conquistar notoriedade num universo marcado, por um lado, pela diversidade e, por outro, pela massificação tornou-se tarefa quase impossível. As redes sociais e as plataformas de streaming revelam-se, com frequência, mais como obstáculos do que como oportunidades. E, no entanto, nunca houve tantos criadores empenhados em imaginar música nova. Talvez porque sintam essa necessidade. Nós precisamos dela, sem dúvida.

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Luís Tinoco

Luís Tinoco (n. 1969; Lisboa) é compositor, professor na Escola Superior de Música de Lisboa e autor/produtor de programas de música contemporânea na Antena 2, onde assume também a direção artística do Prémio e Festival Jovens Músicos. Formado em composição na Escola Superior de Música de Lisboa, prosseguiu estudos na Royal Academy of Music, em Londres, e concluiu doutoramento em Investigação Musical na Universidade de York. O seu catálogo inclui óperas, cantatas, bailados, concertos e obras orquestrais estreadas por importantes formações nacionais e internacionais, com particular destaque para títulos como Evil Machines, Paint Me, Wanderings of a Solitary Dreamer, Lídia e vários concertos para solista e orquestra. A sua música tem sido amplamente divulgada em CD por agrupamentos como a Orquestra Gulbenkian, a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, a Sinfónica de Seattle e o Drumming GP, tendo álbuns como «Archipelago» e «Aleppo e Outros Silêncios» sido distinguidos com prémios nacionais de música clássica. Reconhecido como uma das vozes centrais da criação contemporânea portuguesa, Tinoco foi nomeado Associado da Royal Academy of Music (ARAM) em 2016 e galardoado com o Prémio Pessoa em 2024, distinção que sublinha a relevância do seu contributo para a vida cultural do país.

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Zapping

Zapping é uma obra com a duração de 4 minutos e 33 segundos composta por Luís Tinoco em 2004. Entre outros significados, «zapping» é um termo utilizado para definir o ato de mudar rapidamente os canais num aparelho de televisão. O espectador fixa a sua atenção (apenas brevemente) nos mais diversos e contrastantes conteúdos que lhe vão surgindo, sem laços de continuidade temática ou temporal. Nesta peça, o compositor procura responder ao estimulante desafio de se confrontar, hoje, com o século XVIII, reproduzindo musicalmente o espírito de zapping tão característico da experiência contemporânea, em contextos variados. Não há, portanto, lugar ao desenvolvimento de materiais, nem tão-pouco um discurso orgânico entre o início e a conclusão de uma narrativa. Zapping começa como começa, e acaba como acaba. Mas poderia não começar assim nem deixar de acabar assim. Por oposição a uma música que procura retirar as máximas consequências dos seus materiais, interessou-se por explorar durante 4’33’’ (duração curiosa!) a ideia de velocidade e brevidade, tornando virtualmente impossível qualquer fixação da escuta. Neste contexto, as sinfonias N.º 102  de Haydn e N.º 39 de Mozart surgem como mero «pretexto» – ou, se quisermos, como objets trouvés. Ao longo do trajeto, e através de fragmentos destas sinfonias, revela o zapping pessoal do compositor. Num plano formal mais amplo, procura também explorar a relação (acidental) de Tónica / Dominante que se estabelece entre as duas obras.

Luís Tinoco dedicou Zapping aos seus filhos, Bernardo e Carlota.

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Before Spring

Em 2010, Luís Tinoco compôs Before Spring como tributo à A Sagração da Primavera de Igor Stravinsky. Na origem, esta foi a música de um bailado dos Ballets Russes que, em 1913, surpreendeu pela irreverência rítmica, harmónica e coreográfica, marcando profundamente a História da Arte. Com a duração de onze minutos, Before Spring é interpretado por um agrupamento de dezasseis músicos e foi estreada pela OrchestrUtopica no Centro Cultural de Belém a abrir um espetáculo em que foi apresentada uma nova coreografia de Olga Roriz sobre aquela mesma obra de Stravinsky. O ponto de partida foi, portanto, a partitura d’A Sagração, mas de maneira subliminar. Faz alusão à impetuosidade física que lhe é característica, mas sem a pretensão de «repetir o irrepetível»; sequer através da citação. Em vez disso, colhe acordes soltos, pequenos fragmentos melódicos e texturas sonoras que planta como «sementes» num universo criativo absolutamente autónomo. Luís Tinoco concentrou-se na exploração do timbre (em particular dos sopros) e em novas possibilidades criativas que lhe permitiram desviar o foco do espaço cénico para uma  dimensão fantasiosa da escuta. Na secção final, colocou alguns dos intérpretes em diferentes pontos da sala de maneira a sugerir uma quase-coreografia no espaço auditivo. A música envolve o público, como cores que se libertam da tela e ganham vida própria.