Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo
Mosaico de Orfeu conservado no Museu Antiquarium Turritano em Porto Torres (Itália) : Fonte: Wikimedia Commons

25/05/2020

O Piano de Orfeu


O piano foi o mais fiel companheiro de Beethoven ao longo da vida, mas sobretudo quando se radicou na cidade Viena e necessitou de conquistar notoriedade pública. Nessa época, o virtuosismo pianístico era muito valorizado, e as inovações técnicas introduzidas na construção do instrumento contribuíram para isso. O Concerto para Piano e Orquestra N.º 4 transparece essa evolução, mas esconde outros mistérios. Por exemplo, nunca saberemos se o compositor pretendeu, efetivamente, retratar o mito de Orfeu no 2.º andamento.

**

Embora haja dúvidas a respeito, a primeira apresentação do Concerto para Piano N.º 4 de Ludwig van Beethoven poderá ter acontecido num ciclo de concertos privados realizados em março de 1807 na residência do príncipe de Lobkowitz, em Viena. Publicamente, só foi tocado no Theater-an-der-Wien a 22 de dezembro de 1808, por entre um programa com cinco horas de duração em que também foram estreadas a Fantasia Coral, as 5.ª e 6.ª Sinfonias e partes da Missa em Dó Maior. O concerto permaneceu depois praticamente esquecido, até que, passadas duas décadas, Mendelssohn o recuperou em Leipzig. Fora, todavia, composto em 1805 e em 1806, no período de tempo em que Beethoven também concluiu as 4.ª e 5.ª sinfonias, os quartetos Razumovsky, a ópera Fidelio e a sonata Appassionata.

Nessa altura, Beethoven tinha um piano de construção francesa, do luthier Sébastien Érard. Era um instrumento bastante robusto, com um mecanismo relativamente pesado, maior tensão nas cordas e um teclado ligeiramente expandido. Tinha ainda um sistema de quatro pedais que permitia ajustar em cada momento a maneira como os martelos percutiam as cordas, conforme se pretendesse um som mais suave ou mais violento, entre outros efeitos. Muito embora o pianista não gostasse de algumas das dificuldades técnicas que estas características lhe colocavam, as mesmas permitiam ao compositor obter maior amplitude sonora, um controle tímbrico aprimorado e uma expressão melódica penetrante no registo agudo. Estas qualidades são profusamente exploradas em vários momentos desta obra, em particular no primeiro andamento. Podemos aí ouvir figurações ornamentais que se prolongam nos agudos do piano, algo que não se verifica nos três anteriores concertos. O final deste andamento é particularmente elucidativo, a este respeito.

Antes disso, o piano começa só, lançando sem pretensões um motivo curto, como uma lembrança fortuita. É a partir daí que tudo se desenrola. A orquestra responde com cortesia, para depois empreender a tensão afirmativa que sempre se espera no início de um concerto do período clássico. Ainda assim, não predominam os gestos impetuosos e os rasgos de bravura que costumamos associar a este género de repertório. Em vez disso, exige-se do solista uma gestão meticulosa dos recursos, com subtilezas e cuidados que não correspondem à personalidade irascível que as narrativas históricas construíram em torno da figura de Beethoven. Será esta, portanto, a faceta mais benévola que também se reconhece nalgumas outras obras desta época. Ainda assim, o terceiro andamento não desaponta quem traz consigo expectativas de uma reconciliação triunfal.

Curiosamente, este último efeito é acentuado pela precedência de um curto andamento em que trespassa uma afetação teatral que explora exaustivamente o recurso dos pedais referido em cima. Muito embora Beethoven não tenha deixado qualquer indício de que se trata de música programática, até porque o manuscrito autógrafo da partitura se perdeu, em meados do século XIX floresceu em Berlim, por intermédio do crítico musical Adolf Bernhard Marx, a ideia de que o confronto instalado nessas páginas entre solista e orquestra seria a tradução musical do célebre mito de Orfeu, mais concretamente, quando o filho de Apolo enfrenta o trono de Hades com o seu canto e a sua lira, encantando forças tenebrosas com o «simples» poder da música. Apesar do caráter especulativo destas alusões, elas não deixam de ser muito sugestivas e, até, vagamente plausíveis, tendo em consideração a popularidade que gozavam na época as Metamorfoses de Ovídio e a ópera Orfeu e Eurídice de Christoph Willibald Gluck. Ficou a sugestão. Quem sabe? Talvez possa ser chave para abrir mais uma porta desta obra cujo principal enigma ficará, todavia, sempre por resolver: o génio de Beethoven, em si mesmo.

Artigos Relacionados

A Sinfonia Italiana

Entre todas aquelas que Felix Mendelssohn escreveu, a Sinfonia Italiana é a que se tornou mais popular e mais apreciada pelos especialistas. Saber Mais

O Sinfonista Mendelssohn

A Sinfonia Italiana ilustra bem o posicionamento de Mendelssohn no contexto do repertório sinfónico do século XIX. Saber Mais