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Maurice Ravel e a Orquestra
Maurice Ravel foi um compositor francês que viveu entre 1875 e 1937. Muito embora também tocasse piano, o seu instrumento de eleição era a orquestra; desde logo enquanto maestro, mas sobretudo enquanto compositor. Por isso, tornou-se uma referência incontornável da orquestração (a arte de compor para orquestra). As suas composições são exemplo da estética impressionista em música. Distinguem-se pelas sonoridades delicadas, sonhadoras, extremamente sofisticadas, pela utilização meticulosa – por vezes pouco convencional – das qualidades próprias do som de cada instrumento. Isso permitiu-lhe construir «enredos musicais» inconfundíveis, explorar a paleta tímbrica como recurso dramatúrgico explícito e obter efeitos expressivos que despertam no ouvinte referências extramusicais reais e imaginárias.
Ma mère l’Oye (Minha Mãe Ganso)
O título Minha Mãe Ganso faz alusão ao livro de contos publicado por Charles Perrault em finais do século XVII. Trata-se de um conjunto de cinco peças (uma suíte) composta entre 1908 e 1910, duas das quais inspiradas em contos que aí se lêem e que nos são hoje bastante familiares: A Bela Adormecida e O Pequeno Polegarzinho. Com origem numa tradição oral que remonta à Idade Média, juntam-se aqui sob a figura lendária da Mãe Ganso, uma camponesa que contava histórias às crianças.
Originalmente escritas para piano a quatro mãos, Ravel dedicou estas peças a duas filhas de amigos seus. Para lá da coletânea de Perrault, inspirou-se ainda noutros contos, entre os quais A Bela e o Monstro, este publicado em França em meados do século XVIII. O sucesso público aconteceu quando as jovens pianistas de doze e quinze anos – Jeanne Leleu e Geneviève Durony – as estrearam em abril de 1910 na Salle Gaveau, em Paris, no primeiro concerto promovido pela Société Musicale Indépendante. No ano seguinte Ravel rescreveu-as para orquestra. Chegaria ainda a fazer uma adaptação para um bailado estreado em janeiro de 1912 no Théâtre des Arts. Juntou nessa ocasião um prelúdio e uma cena final.
A Orquestra
A História da Orquestra teve início nos séculos XVII e XVIII, quando a palavra «orquestra» passou a designar um agrupamento instrumental (sem voz, portanto). De início, estava especialmente ligada à ópera e à música sacra, evoluindo a partir dos pequenos agrupamentos instrumentais que acompanhavam os cantores e os bailarinos. Predominavam então as cordas, sendo progressivamente acrescentados os sopros e as percussões, conforme as necessidades e os recursos disponíveis. Com o tempo, mas sobretudo na segunda metade do século XVIII, consolidou-se uma constituição padronizada em naipes bem definidos: cordas, madeiras, metais e percussão. Compositores como Haydn, Mozart e Beethoven beneficiaram muito das potencialidades técnicas e expressivas desta evolução. Chegados ao século XIX, a orquestra cresceu em tamanho e em diversidade tímbrica, refletindo também o aumento da dimensão das salas de concerto e consequente exigência de maior volume sonoro. Foram incorporados novos instrumentos e instituiu-se a figura do maestro, figura responsável pela execução técnica e pelas soluções interpretativas. Nos últimos 150 anos o dispositivo orquestral atingiu o seu ápice. Por vezes, assumiu ainda maior tamanho. Noutras, deu prioridade à variedade e aos detalhes das combinações instrumentais. Tornou-se num dispositivo preferencial para explorar novas linguagens, sonoridades e técnicas de escrita. Hoje temos vários tipos de orquestra: especializadas em música barroca, clássica, romântica ou especificamente dedicadas aos mais variados géneros criativos contemporâneos.
A Transcrição Musical
A transcrição musical é um exercício fascinante. Na prática, consiste em pegar numa obra musical pré-existente e recriá-la numa versão adaptada para diferentes combinações instrumentais. É como contar uma história com palavras diferentes. Mas cada caso é um caso. Por exemplo, no século XIX era muito frequente «reduzir» partituras orquestrais para agrupamentos instrumentais pequenos, de maneira a que fosse possível ouvi-las quando não havia uma orquestra à disposição. Na primeira metade do século XX era mais comum transformar peças para piano em obras orquestrais – como acontece no caso de Minha Mãe Ganso, de Ravel. Já nos tempos da indústria fonográfica, tornaram-se comuns as versões «cover» de canções, muitas vezes como forma de tributo. Portanto, os propósitos são muito variados, mas obrigam sempre a uma nova autoria. Podem ser mais ou menos fiéis ao «texto original», mas resulta invariavelmente algo que não existia antes. Desde finais do século XVIII, os compositores começaram a indicar com precisão na partitura os instrumentos tocar em cada momento, mas a prática da transcrição nunca deixou de ser uma prática muito importante.
A Orquestração
Por intermédio da transcrição, somos convidados a focar a nossa atenção na orquestração. Ou seja, na forma como os instrumentos «dão voz» às diferentes linhas melódicas e aos padrões rítmicos que se desenrolam ao longo tempo. Este é um dos parâmetros que oferece maior margem criativa aos compositores. Durante muitos séculos, a música fora um fenómeno eminentemente vocal. A intervenção dos instrumentos consistia, fundamentalmente, em reforçar as melodias cantadas, ou oferecer um acompanhamento rítmico, quase sempre improvisado. A música instrumental emancipou-se ao longo do século XVI e princípio do século XVII. Então, os compositores passaram a criar música especificamente pensada para ser tocada por determinados instrumentos. Até meados do século XX, quando se vulgarizou o suporte gravado, estas adaptações revelaram-se fundamentais para a difusão do repertório. Uma composição musical podia assim circular mais facilmente se se transfigurasse em múltiplos formatos. Este trabalho de adaptação tornou-se numa verdadeira especialidade, a qual depende do conhecimento profundo das qualidades técnicas e do potencial sonoro e expressivo de cada um dos instrumentos.