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Ludwig van Beethoven no seu estúdio | Gravura decalcada da pintura de Carl Schloesser (1890) | Fonte: Wikimedia Commons

15/09/2020

O Concerto Imperador


Beethoven compôs o concerto Imperador a meio do ano de 1809, quando a cidade de Viena era bombardeada pelas tropas francesas. Basta lembrar este e aquele outro episódio da dedicatória rasurada na Sinfonia Eroica para adivinhar que, havendo um herói neste concerto, não seria seguramente Napoleão Bonaparte.

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O Concerto para Piano e Orquestra N.º 5 é conhecido pelo nome Imperador, muito embora se desconheça a origem dessa atribuição. Foi composto em 1809, quando Viena era cenário de guerra. Por essa altura, a cidade já não ostentava o esplendor de outros tempos, até porque grande parte das famílias aristocratas haviam partido para regiões mais seguras. Mas é curioso notar que este período, que foi um dos mais turbulentos da História da Áustria, coincidiu com uma das fases mais produtivas da carreira do músico. Naqueles primeiros anos do novo século, quando os Habsburgos sofriam derrotas sucessivas diante dos franceses, Beethoven compôs cinco sinfonias, os quartetos de cordas Rasumovsky, as sonatas para piano Waldstein e Appassionata, os últimos dois concertos para piano, e muitas outras obras de equivalente importância. Esta ficou conhecida como a «fase heróica» de Beethoven.

Diante da impetuosidade do primeiro andamento, e sabendo agora o contexto em que a obra foi escrita, resulta difícil dissociá-la dos sons da artilharia que se deveriam fazer escutar sem interrupção em torno do compositor. Contrariando o que seria à época expectável de um concerto para solista e orquestra, o piano evita de início um tema melódico evidente, preferindo irradiar efeitos sonoros por entre uma orquestra que já não se limita à função de acompanhamento. O contraste é grande, quando nos deparamos com tranquila apreensão do segundo andamento, que tem início com um coral «entoado» pela orquestra ao qual o piano responde com uma melodia muito simples, mas carregada de expressão. No final, regressa de novo a inquietação rítmica, desta vez com uma dança popular alemã que nos conduz a um final retumbante.

Trata-se aqui do único dos seus concertos que Beethoven não tocou como solista. Foi estreado em novembro de 1811 com o pianista Friedrich Schneider, em Leipzig, e depois no mês de fevereiro seguinte em Viena, já com Carl Czerny, aluno dileto de Beethoven. Por esta altura, já os bem conhecidos problemas auditivos o impediam de se apresentar em público à frente de uma orquestra. Beethoven estava a compor, portanto, e pela primeira vez, para as capacidades virtuosísticas de um pianista que não ele mesmo. E cabe assinalar que não foi complacente, considerando a dificuldade técnica exigida, porventura maior do que acontece nos concertos anteriores. Desde logo, com um início surpreendente, uma divagação do piano sem precedentes, como se fosse uma cadência fora de lugar, antes mesmo da entrada da orquestra. Mas para lá desse aspeto, também a orquestra mereceu um tratamento diferenciado. Neste concerto, comparativamente aos anteriores, a orquestra tem uma presença mais robusta. É um concerto verdadeiramente sinfónico.

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