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07/10/2019

A Segunda Sinfonia de Brahms


A Segunda Sinfonia de Brahms é bastante mais discreta do que a Primeira. Requer, por isso, uma atenção especial. Em muita música alemã da segunda metade do século XIX sente-se a nostalgia provocada por um modelo de criação artística que se esgotava. Em Brahms, todavia, não se vislumbra qualquer laivo de decadência. A destreza técnica e a sobriedade expressiva que se reconhecem neste seu Op. 73 ajudam a explicá-lo. Brahms não ansiava por um lugar na História. Ele interpretava o seu lugar na História. Encarava a Tradição com uma atitude construtiva, sempre buscando novos caminhos e soluções.

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A Sinfonia N.º 2 de Brahms foi estreada no dia 30 de dezembro de 1877 em Viena, sob a direção do maestro Hans Richter. Seguiram-se apresentações em Leipzig e Hamburgo, sempre com o aplauso do público que exigia a repetição do terceiro andamento. No que respeita à sua «construção», a Segunda Sinfonia apresenta uma estrutura sólida e equilibrada. Aparenta uma simplicidade enganadora, o que se deve à sua consistência formal. Não depende somente dos contrastes ou da exploração de dinâmicas extremas, mas também da maneira como as ideias se entrelaçam com oportunidade e coerência ao longo dos quatro andamentos. Essa confluência entre o arrebatamento expressivo e o rigor formal viriam a projetar-se na produção sinfónica de compositores como Mahler ou Schostakovich.

A obra tem um início algo lúgubre, ao som dos violoncelos. Neste que é o mais longo andamento de todas as sinfonias de Brahms, assiste- se a apontamentos de inesperada penumbra, sobretudo protagonizados pelas trompas e pelos tímpanos, mas também a momentos de triunfo contagiante. Respeitando a tradicional Forma Sonata, reconhecem-se pequenas variações sobre os dois temas melódicos principais, com recurso a transposições e inversões. No segundo desses temas vislumbra-se a muito conhecida canção de embalar «Guten Abend, gute Nacht» que Brahms tinha composto em 1868 (Op. 49/4).

Os violoncelos voltam a destacar-se no início do segundo andamento, com uma melodia onde predominam os desenhos descendentes. O caráter lamentoso que sugere uma interpretação elegíaca irá prevalecer ao longo de todo o tempo, com variações em desenvolvimento, uma maneira engenhosa de explorar o material temático, já que não abandona a Forma Sonata. Pontualmente, o tratamento fugado do tema parece apontar para um clímax, mas mantém sempre a contenção expressiva. Já no terceiro andamento distinguem-se claramente cinco secções. Na prática, é um minueto de ânimo afável que se vê interrompido por duas vezes, pelos ritmos frenéticos de um Trio que se esperaria mais lento. Assemelha-se assim a um Rondó que, apesar da sugestão bucólica das melodias, sempre moldadas em ritmos dançáveis, vê-se pontuado por suspensões enigmáticas. Por fim, um Allegro con spirito que, apesar do ambiente festivo predominante, nunca deixa de introduzir interrupções ambíguas. Impõe-se de início com exuberância, para de seguida confiar protagonismo a diversos instrumentos da orquestra. Com critério cíclico, o tema principal deste último andamento deriva do tema que se ouviu no início do primeiro andamento. Destacam-se os ritmos sincopados que marcam este Finale esfuziante.

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