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02/10/2019
Johannes Brahms

A Celebração da Tragédia


No século XIX institui-se uma divisão no pensamento crítico do fenómeno musical: por um lado, a criatividade artística precipitava-se numa relação despojada com o mundo, inspirada nos recursos dramáticos da tragédia grega; por outro, dava primazia à ordem e ao rigor formal, num estilo «puramente» musical. Em 1872, Nietzsche projetou esse confronto no livro A Origem da Tragédia, distinguindo a natureza dos espíritos Dionisíaco e Apolíneo. Permaneceu impossível, porém, traçar uma fronteira precisa entre tendências como o vanguardismo de Wagner e o conservadorismo de Brahms. A Abertura Trágica deste último compositor, datada de 1880, demonstra-o bem.

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Johannes Brahms foi distinguido em 1879 com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade da Breslávia, na Baixa Silésia. Como manifestação de agradecimento, compôs no verão do ano seguinte a Abertura Festiva Académica, baseando-se em canções bastante conhecidas no meio estudantil da época. A Abertura Trágica foi composta logo de seguida, sem outro propósito aparente que não fosse o de estabelecer um contraste expressivo com o ambiente ébrio e esfuziante da primeira. Por se tratar de um compositor que – para lá de não ter composto qualquer ópera – se tornou emblema do ideal estético da música absoluta, as motivações desta segunda «tábua» do díptico têm sido objeto de interessantes especulações. Questiona-se se seria o prelúdio orquestral destinado a uma produção teatral de Fausto, o poema trágico de Goethe, cuja estreia esteve planeada para o Burgtheatre de Viena mas que não chegou a concretizar-se. A circunstância de alguns dos temas melódicos utilizados terem sido esboçados dez anos antes, e também a garantia dada pelo compositor de que não existe relação entre a partitura e qualquer narrativa dramática, enfraquece tal suposição. Mais sugestiva é a possibilidade de se tratar de um reflexo musical da conceção de tragédia que lera nos escritos de Nietzsche, os quais, apesar de serem vulgarmente associados à estética wagneriana, valorizam muito a serenidade e clarividência do estilo clássico. Se a isto juntarmos a leitura intensa que Brahms dedicou às tragédias de Sófocles e de Shakespeare, está bom de ver que a inspiração desta obra não se deveu às condições meteorológicas menos agradáveis que naquele verão se sentiram na estância turística de Bad Ischl e terão impedido as habituais caminhadas.

Deste modo, na vez da expectável introdução lenta das aberturas orquestrais oitocentistas, a partitura irrompe com dois acordes incisivos que anunciam o tom solene da obra, como apontamentos dramáticos sobre a dimensão trágica da condição humana. Prosseguem depois tempos contrastantes, alterações dinâmicas bruscas, sonoridades sombrias reforçadas pela ação dos trombones e das trompas. Tal não compromete, todavia, os contornos aproximados da tradicional Forma Sonata.

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