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Bohuslav Martinů em 1943 | Fonte: Wikimedia Commons

27/09/2021

Um Concerto Olímpico


A par dos concertos de Richard Strauss, Elliott Carter e Vaughan Williams, o Concerto para Oboé de Bohuslav Martinů (1890-1959) é uma referência fundamental do repertório do último século para este instrumento. Datado de 1955, destinou-se originalmente ao oboísta Jiří Tancibudek (1921-2004), também de nacionalidade checa mas naturalizado australiano. Foi estreado no ano seguinte, no contexto alargado dos Jogos Olímpicos de Melbourne. O nível de exigência técnica e expressiva que se pede ao solista combina bem com essa ocasião.

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Bohuslav Martinů foi um compositor eclético, difícil de enquadrar num único movimento estético. Numa primeira abordagem, insere-se na mesma linhagem dos compositores checos Smetana, Dvořák e Janáček. Com efeito, estudou no Conservatório de Praga e chegou a ser violinista da Orquestra Filarmónica Checa. Porém, em 1923 radicou-se em Paris e, já durante a 2.ª Grande Guerra, refugiou-se nos E.U.A., vivendo os últimos anos na Suíça. A sinuosidade deste trajeto reflete-se numa diversidade estilística que, em parte, se reconhece neste concerto para Oboé, o único concerto para instrumento de sopro do seu catálogo.

O desafio foi-lhe lançado por Jiří Tancibudek, um dos oboístas mais notáveis da segunda metade do século XX, um seu compatriota que se radicou na Austrália em 1950 na sequência do contexto sociopolítico do Leste Europeu no pós-guerra. Curiosamente, não se conheciam pessoalmente até à data. Tudo aconteceu por via postal, sob patrocínio do prestigiado jornal The Daily Telegraph. O primeiro encontro entre ambos só aconteceu depois da estreia europeia, já em março de 1958. Encontraram-se então em Basileia e tiveram a oportunidade de trocar impressões sobre detalhes da obra. E tinham bastante de que falar.

Desde início, Martinů confiou a Tancibudek o poder de decisão para introduzir as alterações necessárias para melhor explorar a idiomática do instrumento. Mas terão também falado de outros aspetos, tais como a orquestração ou a supressão de uma das cadências do último andamento. Assim, a circunstância de Martinů ter morrido antes da primeira publicação da obra deu origem a edições com ligeiras diferenças, para lá de a margem de escolha dada pelo compositor ao intérprete em função das suas preferências interpretativas se ter estendido a outros intérpretes.

Ainda assim, a dimensão destas pequenas divergências nunca afeta a integridade de uma obra que, apesar de curta, articula humores muito diversos. A vivacidade rítmica, a ambiguidade harmónica, uma instrumentação apelativa… estas são características de fundo que atravessam os três andamentos. Tudo começa com uma introdução orquestral impetuosa, seguida de uma melodia de recorte lírico explanada no timbre nostálgico do oboé. Por sua vez, o segundo andamento traz consigo um ambiente mais meditativo e dolente, destacando-se os solos da trompa e uma citação do bailado Petrushka, de Stravinsky. Surpreendem, pelo meio, passagens virtuosísticas do solista que, na companhia do piano, se aproximam da atonalidade. A coda que encerra este andamento é uma das páginas mais impressivas do repertório para este instrumento. Por fim, no terceiro andamento, floresce um cunho mais popular, porventura reminescente da Polca, uma dança cujas origens coincidem com as do compositor. É, simultaneamente, um desafio técnico com vagos contornos jazzísticos, fazendo lembrar Gershwin, nalguns momentos. Concluiu-se assim, com disposição enérgica e festiva.

 

Rui Campos Leitão

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