Este site utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização de acordo com a nossa Política de cookies.

concordo
Benjamin Britten em 1968 | Fonte: Wikimedia Commons

02/02/2021

Sinfonia Simples


A Sinfonia Simples de Benjamin Britten combina de forma sofisticada referencias musicais tão díspares como a música do século XVIII e a valsa dos salões burgueses do século XIX. Datada de 1934, identifica-se com a estética neoclássica, pelo modo como recupera técnicas de composição do passado e as coloca ao serviço de propósitos artísticos sempre renovados.

**

Enquanto compositor, Britten encontrava motivação para trabalhar em alcances plausíveis, tendo em vista situações concretas, intérpretes que conhecia. À sua maneira, buscava uma reacção imediata das suas criações no mundo em que vivia. Nesse sentido, pode-se afirmar que era dono de uma personalidade bastante menos permeável ao ideal romântico do que boa parte dos seus contemporâneos, em particular aqueles que projetavam para si mesmos o reconhecimento póstumo. Ainda assim, a sua música transcende o contexto em que teve origem. Ela comunica connosco através de uma inquietação subliminar. Sempre elegante, avessa a excessos, dissimula uma disfarçada tensão – se quisermos, uma expressão de dor. Pressente-se sempre um inconformismo latente, fundamental. A Sinfonia Simples é uma boa porta de entrada para este universo.

Apesar de ter completado anteriormente quatro partituras orquestrais, esta foi a composição que anunciou definitivamente a carreira do músico inglês. Criança prodígio, cedo se distinguiu enquanto pianista e compondo pequenas peças. Mas foi nesta obra que demonstrou as competências técnicas e expressivas exigidas a um compositor profissional. Sem se afastar dessa intenção, nunca comprometeu, todavia, o seu espírito bem humorado, fazendo parecer tudo fácil (tudo «simples»). A título de exemplo, em concordância com a irreverência de um jovem de vinte anos de idade cheio de talento, não terá sido inocente a aliteração do título que aparece replicada em cada um dos andamentos. Assim acontece em Boisterous Bourrée, onde se acrescenta «violência» àquela dança barroca, sempre de pulsação rápida e cadência binária. Depois, em Playful Pizzicato, um nome que não poderia ser mais denotativo, já que o registo de brincadeira é conseguido através da técnica pizzicato, pousando o arco, dedilhando as cordas. O mesmo acontece em Sentimental Sarabande, a secção mais pungente. Por último, em Frolicsome Finale, um final alegre, como o nome indica. Ao longo de quatro andamentos que mais configuram uma suíte de danças barrocas do que uma sinfonia clássica, sucedem-se temas melódicos emprestados de peças para piano compostas pelo próprio Britten quando tinha apenas dez anos de idade.

 

Rui Campos Leitão

Artigos Relacionados

Sinfonia Londres

Joseph Haydn compôs doze sinfonias que foram estreadas em Londres. Foi, todavia, a N.º 104 que ficou explicitamente conhecida pelo nome da cidade. Saber Mais

Idílio de Tribschen

O «Idílio de Siegfried» de Richard Wagner resultou de uma espécie de serenata dedicada a uma mulher. Saber Mais