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Manfred em Schumann

Em 1849, Robert Schumann compôs uma série de peças destinadas a acompanhar uma representação cénica do poema dramático intitulado Manfred de Lord Byron, que fora publicado em 1817. Entre elas, só a abertura orquestral permaneceu no repertório corrente. É uma criação algo sombria que revela a faceta demoníaca de um herói torturado e possuído, carregada de cromatismos, melodias e ritmos obstinados.

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Schumann nunca se distinguiu pela aptidão para escrever para orquestra. Pelo contrário, ressalta no seu catálogo a importância que deu ao piano, até porque era um extraordinário pianista. Para lá das centenas de peças a solo e canções, este instrumento predomina também na sua música de câmara e obras concertísticas. Já nas sinfonias, vislumbra-se frequentemente uma transposição linear da escrita do piano, desaproveitando a versatilidade orquestral. A este respeito, são célebres as críticas feitas pelo maestro Felix Weingartner, tal como as reorquestrações que Mahler não hesitou em fazer. Curiosamente, estas limitações de Schumann pareciam desaparecer quando se achava diante de uma fonte de inspiração extramusical. Aparentemente, as sugestões poéticas libertavam-no das amarras do classicismo.

É o caso da Abertura Manfred, que dava início à representação cénica do texto homónimo de Lord Byron. Byron foi uma figura singular no romantismo inglês, uma personalidade polémica, capaz de incendiar a imaginação de sucessivas gerações. Parte deste fascínio deveu-se ao carácter semi-autobiográfico das suas obras, que relatam factos reais de uma vida repleta de escândalos e episódios controversos – a angústia e o sentimento de culpa de Manfred reportam a uma caso incestuoso vivido pelo próprio poeta e que se tornou público, obrigando-o a exilar-se na Suíça. Acrescenta-se depois a dimensão ficcional do exercício literário, que introduz elementos sobrenaturais e estabelece afinidades entre Manfred e Fausto, de Goethe. Manfred vive num antigo castelo dos Alpes atormentado pela culpa e buscando remédio para a consciência na invocação de espíritos e na redenção na morte, mas sempre desafiando os mais elementares conceitos da moral.

Figuras como Berlioz, Verdi, Tchaikovsky e Luís de Freitas Branco; estes foram alguns dos compositores que se inspiraram nesta personagem. No caso de Schumann, resultou uma partitura comparável ao que de melhor escreveu para piano. «Ilustra» musicalmente a figura do herói romântico, imersa nas contradições de uma existência predestinada sob forças que a transcendem. A música traduz este universo por intermédio de uma orquestração que favorece a tensão expressiva, alternando acordes agitados com ambientes lúgubres laboriosamente construídos.