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Camille Saint-Saëns ao Piano

Camille Saint-Saëns compôs cinco concertos para piano. O segundo foi escrito em 1868 e, entre todos, foi aquele que se tornou mais popular. É uma obra que presta tributo a vários estilos e compositores do passado, com passagens solísticas aparatosas, efeitos orquestrais de inspiração operática e uma espirituosidade lúdica que convida tanto à fantasia quanto ao drama.

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Para a maioria das pessoas, o nome de Camille Saint-Saëns é sobretudo conhecido pela assinatura d’O Carnaval dos Animais; porventura também da ópera Sansão e Dalila. Porém, o seu legado é bastante mais extenso do que isso. Para lá de mais de centena e meia de obras musicais, foi um dos intérpretes do piano e do órgão mais virtuosos do seu tempo e escreveu vários livros e ensaios sobre temas tão diversos como a astronomia e a poesia. Sem surpresa, o piano foi o instrumento ao qual dedicou maior atenção enquanto compositor, desde peças a solo até aos cinco concertos para piano e orquestra, dos quais se destaca aqui o segundo. 

Este concerto resultou do desafio que lhe foi lançado por outro pianista com quem costumava tocar em dueto, Anton Rubinstein. Numa ocasião em que este visitou Paris, o também célebre músico russo teve a ideia de se dar a conhecer enquanto maestro na capital francesa. Em pouco mais de duas semanas, o concerto estava pronto para os ensaios da estreia que teve lugar no dia 13 de maio de 1868 na Salle Pleyel com o próprio compositor no lugar do solista.

O pianista polaco Sigismund Stojowski disse um dia que este Segundo Concerto para Piano de Saint-Saëns «começa como Bach e termina como Offenbach». O humor desta descrição alude à diversidade de estilos e ambientes que é muito frequentemente criticada na música do compositor francês e que, manifestamente, também atravessa os três andamentos desta obra. Tudo começa de maneira contida, ainda que num tom vagueante que quase se parece com uma improvisação ao teclado, lembrando uma tocata barroca. Mas com o passar do tempo percebe-se que se aguarda voos mais altos, em particular no desempenho do solista, que tem aqui uma obra que corresponde plenamente ao arquétipo do virtuosismo romântico tão apreciado naquela época – na realidade, ainda hoje continua a sê-lo. O segundo andamento logo se entrega nos ritmos de um Scherzo que remetem para Mendelssohn – foi a secção da obra que mais entusiasmou o público. Tudo termina numa vigorosa tarantela com disposição circense.

 

Rui Campos Leitão