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Fernando Lopes Graça na sua casa da Parede, 1980, fotografia de Augusto Cabrita | Fundo FLG, MMP

04/07/2020

A Fantasia de Lopes Graça


O entusiasmo e a apreensão que tomaram a sociedade portuguesa nos meses seguintes ao 25 de Abril permaneceram guardados num lugar muito especial da memória de todos os que a viveram por dentro. Fernando Lopes Graça tornou-se então uma das figuras mais acarinhadas em todos o país, assumindo uma notoriedade pública que, já perto de se tornar septuagenário, irradiava uma segunda juventude. Por isso, a Fantasia para piano e orquestra é um testemunho histórico que vale bem a pena revisitar. Estreada em março de 1975, com o próprio compositor ao piano, esta obra baseia-se numa melodia tradicional da região da Beira Baixa.

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Fernando Lopes Graça não alimentava sentimentos paternalistas a respeito da música de raiz tradicional portuguesa. Em 1947 publicou na revista Seara Nova um artigo intitulado «Apontamento sobre a canção popular da Beira-Baixa» em que dizia que só se pode compreender a música popular do nosso país se a considerarmos, primeiro que tudo, como arte, como «manifestação sensível do Belo». No mesmo sentido, acrescentava que só uma dupla abordagem, científica e estética, poderia distinguir o «verdadeiro folclorista» do mero colecionador de melodias. O que se impunha fazer, era contornar aqueles cantos e dançares «puladinhos e arrebicados» a que não se cansava de chamar «folclorismo de contrafação», e valorizar a mais genuína espontaneidade musical de um povo. Lopes Graça havia então concluído uma viagem por aquela região. Seis anos depois regressou, dessa vez levando consigo um gravador de som. Nunca foi, porém, sua pretensão desenvolver estudos de natureza etnológica, como acontecia com Michel Giacometti, com quem viria a colaborar a partir do início da década de 1960. Lopes Graça investigava a expressão artística de um povo na perspetiva da sua própria condição de artista. Tinha como motivação ir ao encontro de uma identidade musical que fosse, o mais genuinamente possível, pertença da cultura nacional. Para o fazer, apropriou-se de muitas dessas melodias em mais de três dezenas de obras por si assinadas – sem contar as obras vocais. Empreendeu assim um diálogo íntimo com o «espírito de um povo», retratando-o no espírito da sua (também) inconfundível linguagem.

Este é um enquadramento possível para apresentarmos a Fantasia que Fernando Lopes Graça estreou em março de 1975 à frente da Orquestra Sinfónica da RDP dirigida pelo maestro Silva Pereira. O concerto decorreu na programação da 3.ª edição do Concurso de Piano «Cidade da Covilhã», o qual presidiu. Vivia-se então intensamente a Revolução dos Cravos, e o compositor tornara-se símbolo da resistência à opressão política por intermédio das artes. Nessa altura, enquanto se apresentava em concertos calorosos à frente do Coro da Academia Amadores de Música, recuperou um canto religioso recolhido naquela região para o devolver ao público transfigurado em Fantasia, um formato musical que lhe oferecia a liberdade necessária para conciliar o virtuosismo pianístico, o que se impunha no contexto de um Concurso de Piano, com a recriação de uma melodia pré-existente e com raízes locais. Em virtude dos aspetos afins entre as duas obras, é tentador aqui lembrar uma crónica jornalística que o próprio Lopes Graça escrevera em 1940 a propósito da «Fantasia sobre motivos populares» de um outro compositor, Armando José Fernandes. Nesse texto (Seara Nova, N.º 648) colocava a seguinte pergunta: «Será o facto de se empregarem temas populares em determinada obra garantia suficiente da autenticidade étnica de tal obra?». Com toda a admiração que tinha pelo seu colega, não deixou de ali manifestar as suas dúvidas, sobretudo a respeito da fragmentação excessiva do tema. O pensamento de Lopes-Graça sobre a matéria evoluiu ao longo dos anos, mas é curioso acompanhar atentamente o tratamento que faz na sua Fantasia da melodia que os contrabaixos anunciam solenemente, ao cabo de uma curta divagação do solista em aparente improviso, a mesma melodia que reaparece no breve cânone que preenche os últimos compassos.

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