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Igor Stravinski e Samuel Dushkin cerca de 1930 | Desenho de Hilda Wiener (1877-1940) | Fonte: Wikimedia Commons

07/10/2019

Stravinsky Neoclássico


Stravinsky não se deixou encandear pelo prestígio da revolução estética associado às obras que compôs em início de carreira, tais como A Sagração da Primavera. Ao longo de toda a vida, defendeu que a arte de fazer música também é prática de conhecimento, e que inovar, por si só, é insuficiente. Nesse sentido, nas décadas de 1920, 1930 e 1940 enveredou por uma orientação neoclássica, entendida esta na sua conceção mais abrangente. O Concerto para Violino é um dos exemplos mais emblemáticos desse percurso.

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Igor Stravinsky deu-se a conhecer ao mundo por intermédio da música para bailado, designadamente nos espetáculos apresentados em Paris na década de 1910 pelos Ballets Russes. Depois disso, teve início o seu «período neoclássico», o qual se estendeu, genericamente, entre o bailado Pulcinella e a ópera The Rake’s Progress. Como qualquer rótulo, também este tem contornos ambíguos. No caso do Concerto para Violino, cedo nos apercebemos que as referências do passado são anteriores ao classicismo de Haydn e de Mozart, pelo que faria mais sentido chamar-lhe «neobarroco». Os nomes que dão título aos quatro andamentos reportam explicitamente à música do século XVII – Toccata, Ária I, Ária II, Capricho. Em particular, a Toccata era uma peça virtuosística de tempo rápido e tocada em instrumentos de tecla. É curioso notar que, por entre evidente complexidade contrapontística, o motivo rítmico principal coincide com aquele do duplo concerto de Bach (BWV 1043), ainda que permita vislumbrar contornos da Forma Sonata que sempre se espera do primeiro andamento de um concerto clássico. As duas Árias também fazem alusão à música barroca, e ilustram bem como são evitados os tuttis orquestrais, quer nas cordas quer nos sopros. Remetem-nos para uma dimensão camerística, com sucessivas mudanças nas combinações instrumentais que dialogam com o solista.

Para Stravinsky, os anacronismos eram parte essencial do mais genuíno comprometimento com a criação de algo novo. Recorria a processos imitativos, mas transformava-os num estilo avesso às amarras do tempo. Procurava, assim, explorar a dramaticidade latente e a natureza potencialmente conflituante da coexistência de recursos técnicos com proveniências diversas. Assimilava as ideias do passado e devolvia-as à emergência do presente, e do futuro. Na recusa da subjetividade romântica, convertia o velho em novo sem revivalismos ou evocações nostálgicas, olhava para o passado em busca de si mesmo. Deste modo, o Concerto para Violino sobrepõe planos texturais aparentemente independentes. Convida o ouvinte a reconhecer padrões rítmicos, motivos e intervalos que lhe são familiares. No entanto, e partindo de sobreposições improváveis, constrói tensões que evoluem discretamente ao longo do tempo. Será, porventura, na cuidada gestão destas dissociações e convergências de planos que reside a essência desta obra.

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