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O Concerto em Mi Menor de Chopin

Num comparação grosseira, o Concerto em Fá Menor de Chopin tem um caráter poético e introspetivo, ao passo que o Concerto em Mi Menor é mais dramático e vigoroso. Aqui, o solista assume maior protagonismo, com rasgos característicos do virtuosismo pianístico em voga no início do século XIX. Contrasta o andamento lento, com uma atmosfera intimista e sonhadora. Não espanta ter sido «cartão de visita» no momento de se aventurar além fronteiras; primeiro em Viena, em 1831, e no ano seguinte em Paris. Desde há duzentos anos, tem sido um dos principais contributos que alimentam o estatuto de génio romântico associado à figura do músico polaco.

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Genericamente, o Concerto em Mi Menor respeita o modelo padrão de um concerto da época. O primeiro andamento caracteriza-se pela alternância convencional entre intervenções da orquestra e extensas passagens solísticas. O andamento lento apresenta uma forma tripartida (A-B-A’), com breves apontamentos orquestrais e uma textura semelhante à dos noturnos: melodia acompanhada. O último andamento assemelha-se a um Rondó, recriando tipologias emprestadas da música tradicional. Trata-se de uma Cracoviana, uma dança de pares rápida com ritmos sincopados que lembram o galope de um cavalo e muitos defendem aqui representar a opressão do povo polaco. Juntam-se ainda influências do bel canto operático italiano e do virtuosismo pianístico de Johann Nepomuk Hummel.

Tudo «o resto» é Chopin. Com enfoque na parte do piano, escutam-se motivos melódicos cuidadosamente desenhados, movimentos cromáticos e apogiaturas na medida certa, notas contornadas com cerimónia… Um estilo arrebatador! Paradoxalmente, é na simplicidade que está o segredo da interpretação. Chopin recomendava que as passagens ornamentadas fossem tocadas com clareza e naturalidade, sem exageros que as tornassem artificiosas ou excessivamente afetadas. Cuidava dos detalhes. Era rigoroso na gestão das dinâmicas – «leggierissimo», «poco crescendo». Buscava o equilíbrio certo para nunca comprometer a poética delicada que torna a sua música inconfundível.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Mapa de Paris datado de 1831 / Fonte: Wikimedia Commons