O Concerto para Piano N.º 2 de Frédéric Chopin foi composto entre o final de 1829 e os primeiros meses de 1830. É uma obra de juventude em que um pianista virtuoso se aventura para lá dos limites do seu instrumento. Mas, desde logo, revela a mão certeira de um dos maiores talentos da História da Música. O piano não confronta a orquestra com sobreposições complexas e desafiantes. Em vez disso, ambas as partes exploram requintes sonoros de grande beleza, desenhos melódicos fascinantes que se encadeiam sem mácula.
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O segundo concerto para piano de Chopin – o primeiro que escreveu – é uma obra plena de originalidade. Distingue-se pela preponderância do piano em relação à orquestra, o que ocasionalmente suscitou críticas severas. Embora siga a tradicional divisão em três andamentos, acaba por privilegiar o virtuosismo do solista em detrimento de uma estrutura formal mais sólida. Nunca abandona, porém, o fio condutor em que assenta: sucessivos efeitos dramáticos que prendem a atenção do ouvinte de início ao fim.
O convencionalismo da introdução orquestral no primeiro andamento não permite adivinhar a importância do que está para vir. Só quando o piano explana o seu discurso – quase como um monólogo – se vislumbra a singularidade criativa do músico polaco. Tal protagonismo torna-se ainda mais evidente no andamento lento que lhe segue e que, nas palavras do compositor, retrata a disposição tranquila e melancólica de alguém que relembra as suas memórias mais felizes, algo como «um sonho ao luar numa bela noite de primavera». Cabe aqui lembrar que a relação que Chopin manteve no final da vida com a escritora George Sand ensombra nas suas biografias uma primeira paixão, pela jovem soprano Konstancja Gładkowska. Este momento da obra ser-lhe-ia subliminarmente dedicado. Contrasta, assim, com a vivacidade rítmica do último andamento, evidentemente inspirado em danças tradicionais da época.
Rui Campos Leitão
Imagem: Mapa de Varsóvia datado de 1831 / Fonte: Wikimedia Commons