Colocar lado a lado o Concerto em Lá Menor de Michel Blavet e o Concerto para Flauta N.º 7 de François Devienne é pretexto para lembrar o relevo que a flauta transversal teve no panorama musical parisiense ao longo de todo o século XVIII. Permite também balizar a influência que a associação Concerts Spirituels teve entre 1725 e 1790 no âmbito dos concertos públicos.
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No século XVIII a flauta transversal era muito apreciada entre as famílias nobres de toda a Europa; também em França. Mais do que o violino e o cravo, este instrumento adequava-se a fins de formação e entretenimento, uma vez que se impunha saber ouvir e tocar música. Mas a implantação da flauta transcendia os salões privados. Distinguia-se também nas orquestras dos teatros de ópera e nos concertos públicos. Em gerações distintas, os flautistas Michel Blavet (1700-1768) e François Devienne (1759-1803) foram dois ilustres protagonistas dessa realidade.
O primeiro foi um dos mais virtuosos instrumentistas do seu tempo. Integrou a Orquestra da Ópera de Paris e desempenhou funções de prestígio nos circuitos sociais da aristocracia. Conhecia bem a música de Lully e de Rameau, mas o seu estilo de composição era «menos teatral». Não por acaso, foi na programação dos Concert Spirituels que se deu a conhecer como compositor, nesse contexto mais permeável a diferentes estilos instrumentais, onde se apresentavam músicos estrangeiros… mas também compositores franceses. Era este o caso de Blavet, que em 1728 fez aí estrear os seus concertos de inspiração italiana. É incerta a data da composição, mas o seu concerto para flauta com duas partes de violino e outra de violoncelo será datado da década de 1730. As gavotas do andamento central reconhecem-se no estilo francês, mas os restantes dois não escondem a influência da forma ritornelo que todos identificamos com Vivaldi.
Já no final da década de 1780 foi François Devienne quem ali fez estrear um concerto na tonalidade de Mi Menor, o N.º 7. Este apresenta apresenta uma orquestração mais sofisticada do que os seus concertos anteriores, com maior interação entre a flauta e os outros instrumentos. Ainda assim, O seu estilo é eminentemente melódico, sem grande complexidade contrapontística. Notoriamente, é na componente melódica que se acha o encanto das suas composições. Nelas ainda se vislumbra a tradição barroca, mas também é evidente a rejeição de artifícios rebuscados. Desse modo, a sua escrita está mais próxima de um estilo galante, e até mesmo clássico. Com efeito, trata-se do concerto de Devienne mais tocado hoje em dia, até porque marca um momento de viragem na sua produção, com mais contrastes expressivos e uma exploração exímia das possibilidades daquele instrumento. Não espanta, assim, que em 1794 o músico tenha publicado um método para a aprendizagem da flauta e tenha sido um dos professores que inauguraram o Conservatório de Paris no ano seguinte.
Rui Campos Leitão