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Hector Berlioz | gravura publicada em 1851 | Fonte: BnF Gallica

10/01/2021

As Noites de Verão Segundo Berlioz


O compositor francês Hector Berlioz escreveu cerca de duas dezenas de canções para voz e orquestra, mas só as seis que constituem Les nuits d’été foram publicadas em conjunto. Não evidenciam uma unidade musical e narrativa comparável à dos ciclos de canções de Schubert, Schumann ou Mahler. Coincidem, porém, na poesia de Théophile Gautier, a qual despertou a mais etérea expressão de lamento no autor da Sinfonia Fantástica.

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O título que Hector Berlioz escolheu para o ciclo de canções Les nuits d’été faz alusão à comédia de Shakespeare Um sonho de uma noite de verão, uma leitura imprescindível nos círculos cultos da Europa do século XIX. Ainda assim, só nalgumas partes se reconhece o imaginário feérico e primaveril que atravessa a obra do escritor inglês. Em verdade, a primeira e última canções denotam um caráter exuberante, mas as restantes instalam-se em ambiências bastante mais sombrias. Os poemas são da autoria do francês Théophile Gautier e coincidem na temática do amor, muito embora também abordem sentimentos como o desejo ou a saudade. Não espanta que assim seja, já que foram retirados de um livro publicado em 1838 intitulado La comédie de la mort.

Desconhece-se, em concreto, as razões que levaram Berlioz a escrever estas canções, não tendo havido uma encomenda ou projeto profissional na sua origem. Seriam, certamente, motivações pessoais, se bem que estas não sejam aludidas no livro de memórias do compositor. A versão original, para voz e piano, foi dedicada à filha do diretor do Journal des débats, para o qual Berlioz escrevia regularmente. Já em 1843, quando orquestrou a quarta canção, Absense, dedicou-a à cantora Marie Recio, quem o acompanhava em digressões pela Europa e veio a ser sua segunda mulher.

Este ciclo foi relativamente negligenciado durante muitos anos. Só em 1856 Berlioz orquestrou as restantes canções, dedicando cada uma delas a diferentes cantoras que desenvolviam carreira na Alemanha. Muito provavelmente, o compositor nunca ouviu a interpretação integral do ciclo. Já no século XX, afirmou-se como peça de repertório, tornando-se frequente nas salas de concerto de todo o mundo.

 

Rui Campos Leitão

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