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Joly Braga Santos | Fonte: mic.pt

15/06/2021

Divertimento N.º 1 de Braga Santos


A carreira de Joly Braga Santos teve início nos anos 1940. Era então aluno de Luís de Freitas Branco e um dos compositores mais talentosos que o país algumas vez vira despontar. A sua música era espontânea, mas de elaboração cuidada; era intensa, mas de apreensão imediata. Quando escreveu o Divertimento N.º 1, em Itália, estava a atingir a maturidade e já dominava com destreza a escrita orquestral, em virtude da formação de maestro que aí recebeu junto de Hermann Scherchen.

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Todos reconhecerão neste Divertimento de Joly Braga Santos ideias musicais afins à música tradicional portuguesa, ainda que não seja possível identificar a origem de cada umas delas. Trata-se de frases melódicas curtas que aparecem no início de cada andamento, ritmos característicos, intervenções cirúrgicas por parte das percussões e harmonias que associamos imediatamente à nossa cultura, entre outros detalhes que quase passam despercebidos. Muito embora esse não seja o estilo que mais decisivamente marcou o trajeto criativo do compositor, certo é que algumas das obras mais importantes do seu legado constroem-se na mesma linha, tal como acontece nas Variações sobre um tema alentejano, de 1951.

Curiosamente, este Divertimento resulta de um parêntesis estilístico, numa altura em que, no início dos anos 1960, já havia decido aventurar-se por sonoridades mais próximas das tendências modernistas daquela época, inaugurando, de certo modo, uma nova fase na sua carreira. Encontrava-se na altura, e pela segunda vez, em Itália, beneficiando de uma bolsa do Estado português que lhe permitiu descobrir «novas músicas». Conviveu nessa época com Jorge Peixinho, que também se encontrava em Roma, e conheceu Luigi Nono. Assim, esta obra pode ser entendida como uma obra charneira. Ainda que distante do despojamento de Bartók, o entendimento do formato Divertimento está bem mais próximo do compositor húngaro do que de Mozart, sendo recorrentes as oposições entre diferentes núcleos da orquestra, à imagem de um concerto barroco. Nela predominam a inspiração melódica e o domínio da orquestração que fizeram de Braga Santos um compositor de referência do século XX. Foi estreada em março de 1961 na cidade de Nápoles pela Orquestra Scarlatti sob a direção do próprio Braga Santos e com transmissão na Radiotelevisão Italiana. É hoje em dia uma das suas obras mais frequentemente programadas.

Rui Campos Leitão

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