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Georges Bizet em 1875 | Fonte: BnF Gallica

25/10/2020

A Sinfonia de Bizet


Georges Bizet escreveu uma única sinfonia. Trata-se de uma obra de juventude que só veio a ser estreada sessenta anos após a sua morte. Mistura traços de grande leveza, bem ao jeito do classicismo mozartiano, com momentos de intenso lirismo que viriam a revelar-se com esplendor na célebre ópera Carmen. Mas para lá do valor artístico, faz prova das competências técnicas que o músico francês já tinha aos dezassete anos de idade. Terá sido composta enquanto exercício de formação e, talvez por essa razão, não tenha sido publicada. Ironia do destino, foi postumamente considerada por muitos como um dos seus trabalhos mais bem conseguidos.

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Georges Bizet escreveu esta Sinfonia em Dó Maior em 1855, mas a sua existência não foi conhecida até 1933, e só foi tocada em 1934, quando o maestro Felix Weingartner a estreou em Basileia, na Suíça. Desde então, entrou no repertório regular das salas de concerto e tem sido objeto de interesse por parte de musicólogos e biógrafos. Pergunta-se, porque razão Bizet nunca fez tocar esta sua partitura? Porque é que nunca a mencionou em qualquer escrito? Porque é que os seus herdeiros não a fizeram publicar? Estas perguntas assumem maior pertinência quando se tem em conta que é hoje consensual a apreciação de que se trata de uma obra admirável de um muito jovem compositor, comparável a outros célebres talentos precoces, tais como Mozart, Schubert e Mendelssohn.

Na realidade, esta sinfonia resultou de um exercício académico. O seu principal incentivo para escrever uma obra instrumental de semelhante fôlego, e com tão prematura idade, terá sido a enorme admiração que tinha por Charles Gounod e a forma como este conseguiu entusiasmar o meio musical francês com a sua 1.ª Sinfonia. Tal representou, na altura, um desafio à ideia da supremacia da música instrumental germânica. Com efeito, em muitas secções da sua composição, Bizet fez ecoar influências muito concretas daquela composição de Gounod. Mas longe de se tratar de plágio, Bizet assimilou procedimentos de uma forma irrepetível. É, portanto, uma inequívoca manifestação do seu extraordinário génio musical. Ainda assim, não quis assumir plenamente a obra. Escreveu mais tarde que «Gounod é na sua essência um compositor original: se nos limitamos a imitá-lo estamos condenados a permanecer na condição de discípulo». Bizet quis construir a sua própria identidade.

Rui Campos Leitão

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