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Fotografia Tchaikovsky em Odessa em Janeiro de 1893 | Fonte: Wikimedia Commons

15/02/2020

A Patética de Tchaikovsky


Piotr Ilitch Tchaikovsky dirigiu a estreia da Sinfonia N.º 6 no final de outubro de 1893, em São Petersburgo. Morreu nove dias mais tarde, de maneira inesperada, o que contribuiu para as inúmeras alusões extramusicais que surgiram em torno da obra. Tanto mais porque o próprio compositor admitiu a existência de um conteúdo programático subjacente, muito embora nunca o tenha revelado. Seria redutor, no entanto, resumi-la a um aceno de despedida por parte de um grande músico que pressentiu a morte, e mais ainda, a uma narrativa musical baseada em angústia criativa ou vivências pessoais sofridas.

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Com o provável consentimento do compositor, a partitura da Sinfonia N.º 6 intitula-se «Patética», o que sublinha bem a intensidade expressiva que a caracteriza. O nome deriva da palavra «Pathos», que em grego significa sofrimento, mas também remete para a paixão e para emoções exacerbadas. Era comum Tchaikovsky evocar aspetos da sua vida emocional nas «entrelinhas» das sinfonias que compunha. Porém, neste caso parece ter levado isso até às últimas consequências, até porque o dramatismo dos episódios biográficos que enredaram esta composição terão contribuído para tal. Em 1890, Nadezhda von Meck, mecenas de longa data, suspendeu o apoio que lhe dava, devido a privações económicas. O compositor nunca aceitou tal argumento, sentindo-se traído e afetado na sua auto-confiança. Por outro lado, a homossexualidade também lhe trazia dificuldades crescentes, numa altura em que mantinha uma relação apaixonada com o seu sobrinho Vladimir Davydov (a quem a partitura é dedicada) e se via confrontado com normativas legais intolerantes a esse respeito. Não se estranha, por isso, que numa fotografia que lhe conhecemos tirada em janeiro de 1893, quando contava somente 53 anos de idade, nos pareça um homem desgastado e envelhecido. Existe, assim, um grande mistério em torno da sua morte repentina. Levantam-se possibilidades como o suicídio, entre outras igualmente graves. Há relatos que falam de uma infeção de cólera motivada pela ingestão de água insalubre, mas questionando se se tratou de acidente ou se foi de algum modo provocada por terceiros.

Em todo o caso, sabe-se que Tchaikovsky estava plenamente satisfeito com a sua nova Sinfonia, chegando mesmo a admitir que se tratava da melhor composição que alguma vez escrevera. De certa maneira, encarnou o ideal artístico romântico, no sentido em que projetou os sofrimentos pessoais numa obra de arte sublime, como verdadeiro processo de libertação, partindo de uma reflexão sobre a Vida e sobre a Morte. Ao longo dos quatro andamentos é possível vislumbrar um confronto colossal entre o entusiasmo pela existência e a exaustão profunda, entre uma força vital e o esgotamento físico e anímico. O arrebatamento das emoções dirige-se inexoravelmente ao desespero e à desolação.

Os primeiros compassos são premonitórios, com uma melodia grave no fagote, acompanhada pelos contrabaixos e pelas violas, como se emergissem dos confins da Terra. Mas logo desperta um registo confiante e determinado, por entre uma orquestração suntuosa e melodias de belo efeito. Carregada de referências, a melodia que se destaca no primeiro andamento é um derivação livre da ária «La fleur que tu m’avais jetée» que Don José canta no segundo ato da ópera Carmen de Bizet. Também não é casual a breve citação que se ouve a dada altura do Requiem da Igreja Ortodoxa Russa. A intensidade dramática que se atinge gradualmente ao longo do primeiro andamento desagua no retorno à primeira melodia e, em particular, na aparente vacuidade de um segundo andamento que se alimenta na ambígua sensualidade de uma valsa desfigurada, uma iminência de colapso que se estende no tempo. O terceiro andamento contrasta de forma excessiva, numa disposição algo grotesca que mistura o Scherzo com a Marcha, e aponta a acordes finais que convidam enganadoramente a aplausos «fora de tempo». Surge então o desfecho mais improvável. É a extinção inexorável de um lamento que rompeu com todos os paradigmas à época associados ao formato Sinfonia. Pressente-se a desistência, em sentido contrário do confronto com o destino que trespassara nas sinfonias anteriores.

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