O desígnio da liberdade individual foi para Ludwig van Beethoven um pretexto criativo recorrente. Desde a ópera Fidelio à Nona Sinfonia, são muitos os exemplos que traduzem nas suas obras a apropriação de ideais de natureza social e política. É também o caso da Abertura Egmont, de 1810, que ilustra a capacidade que a Música tem de se transcender num alcance expressivo simultaneamente íntimo e universal.
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A Abertura Egmont foi a introdução orquestral que Beethoven compôs para uma representação da peça teatral homónima que Goethe escrevera cerca de duas décadas antes. Esta moldava-se na estrutura dramatúrgica das tragédias de Shakespeare, podendo entender-se como um manifesto político pelos valores da justiça e liberdade do indivíduo diante da opressão despótica. O enredo baseia-se na história de um guerreiro flamengo que resiste à invasão das tropas espanholas. O Conde Egmont encarna assim a figura de herói, na condição de um mártir cuja morte é representação das virtudes de quem luta por aqueles ideais.
Indo ao encontro desta temática, a presente abertura consiste num verdadeiro hino de luta pela liberdade; música carregada de força, nobreza e carisma triunfante. Começa algo sombria, sem pressa, ilustrando com meia dúzia de acordes todo o poder da tirania. Aos poucos, começa a desenvolver-se com maior dinâmica, porventura traduzindo a boa índole e a determinação do herói. Tudo aponta a um clima épico, como se através de notas musicais fosse possível traduzir a convicção de que a morte pode não representar «o fim», designadamente quando a nobreza de espírito com ela coincide.
Rui Campos Leitão