Nasceu em Lisboa, há 53 anos. Frequentou as licenciaturas de biologia e geologia na Universidade dos Açores e de Matemática Pura na Faculdade de Ciências de Lisboa, mas foi pela Direção (ESML) e pelas Ciências Musicais – ramo de musicologia (FCSH-UNL) que haveria de enveredar, quer em termos académicos e científicos, quer artísticos. A sua formação prática de base, obtida no Instituto Gregoriano de Lisboa, e o seu interesse interdisciplinar, levaram-lhe a adotar um percurso profissional eclético, desde o ensino, passando pela direção coral, acompanhamento de performers, e canto solista, até à investigação musicológica e à política educativa.
É Diretor Pedagógico da AMEC | Metropolitana desde 2017.

Como Diretor Pedagógico da Metropolitana, como define o projeto formativo desta instituição?
A Metropolitana é uma entidade que, para além de uma orquestra, tem instituídas três escolas, todas vocacionadas para a promoção do ensino artístico especializado da música. Consoante os cursos de cada escola, os respetivos ciclos de aprendizagem, regimes e/ou modalidades de frequência, o projeto formativo desdobra-se fundamentalmente em três vertentes: no caso da Academia Nacional Superior de Orquestra (ANSO, fundada em 1992), trata-se da única instituição de ensino superior politécnico do País vocacionada para as especialidades de músico de orquestra, de direção de orquestra, e de pianista para acompanhamento e música de câmara.
Nestes quase 26 anos, são já muitos os músicos formados cá na casa…
Sim, sim. São já várias as centenas de novos músicos que ajudámos a formar superiormente, contribuindo para o aumento da qualidade técnica, artística e profissional da prática instrumental em Portugal e em vários países da Europa.
E a Escola Profissional da Metropolitana (EPM), que existe desde o ano letivo 2008/09?
É uma outra dimensão da Metropolitana. A EPM promove cursos de Instrumentista de Cordas e Teclas e Instrumentista de Sopros e Percussão, ambos de nível de qualificação IV. Além disso, mais recentemente, na realidade já no presente ano letivo, passou a promover também os referidos cursos ao nível do 3º Ciclo (nível de qualificação III).
Qual é a marca distintiva do ensino da EPM?
Nesta escola, a EPM, pretende-se privilegiar claramente a dimensão prática em todas as componentes de formação, com uma forte assistência tutorial, sem descurar o desenvolvimento avançado de atitudes e competências socioculturais e conhecimentos científico-humanísticos. No final da formação (12º ano) não só se pretende ver assegurada aos alunos a obtenção de uma qualificação que lhes facilite a inserção no mercado de trabalho, como também dotá-los de conhecimentos e competências que lhes permita estarem em perfeitas condições de prosseguir estudos ao nível superior.
Já falámos da ANSO e da EPM, mas a Metropolitana ainda tem o Conservatório, o que permite uma abrangência etária e curricular assinalável.
Sim, é verdade. Por isso o nosso lema na Metropolitana é “Uma Orquestra, três Escolas”. Como disse, e bem, o Conservatório de Música da Metropolitana (CMM) é caracterizado por uma grande heterogeneidade de perfis de formação. Aqui são promovidos cursos de iniciação, básicos e secundários de música, todos com planos curriculares próprios, para além de cursos livres de instrumento.
Independentemente das idades?
Sim, exatamente. A população estudantil do Conservatório vai desde os 4 aos 76 anos de idade. Estes últimos cursos respondem às expectativas daqueles que pretendem fazer uma aprendizagem personalizada, com diferentes motivações musicais e diferentes ritmos de aquisição de competências técnico-interpretativas e conhecimentos musicais. Por esta razão, como é compreensível, não estão vinculados a programas de ensino especializado da música mais convencionais.
Essa heterogeneidade de que fala é particularmente importante no Conservatório da Metropolitana…
Sim, claro. Eu diria mesmo que acaba por ser um elemento de especial originalidade pedagógica e formativa do CMM face à grande maioria dos outros conservatórios existentes em todo o país.

endo a Metropolitana, como já aqui falámos, um orquestra e três escolas, de que forma é que os alunos podem beneficiar do facto de estudarem numa instituição que tem uma orquestra profissional?
De uma forma total. Mas é bom reforçar isso. De facto, a existência dentro da mesma entidade de um conjunto excecional de músicos profissionais que não só trabalham diariamente nas nossas instalações, ao nível dos ensaios e demais atividades relacionadas com a sua atividade artística, como são na sua esmagadora maioria igualmente professores em, pelo menos, uma das três escolas, acaba por favorecer, sem sombra de dúvidas, um ambiente de motivação pelo estudo musical.
E essa motivação é ainda maior porque cada uma das três escolas tem a sua própria orquestra, com apresentações regulares. Ou seja, a prática está sempre presente no ensino da Metropolitana.
Exatamente, essa dimensão prática é muito relevante para nós. O CMM tem a Orquestra Juvenil da Metropolitana, dirigida pelo Prof. Élio Leal e formada maioritariamente por alunos a partir do 3º grau, a EPM tem a Orquestra Clássica da Metropolitana, dirigida pelo Prof. Reinaldo Guerreiro e constituída pelos alunos dos cursos secundários, e a ANSO tem a Orquestra Académica da Metropolitana (OAM), dirigida, desde a sua origem, pelo maestro e prof. Jean Marc-Burfin.
E a OAM tem já uma temporada musical específica, o que permite aos alunos tocarem para o público.
E isso é muito importante. A título de exemplo, posso dizer-lhe que 80 alunos do Curso de Instrumentista de Orquestra da Academia Nacional Superior de Orquestra constituem a OAM, que é o eixo central da formação ministrada neste estabelecimento de ensino, apresentando uma média de 20 a 25 concertos anuais. Esta orquestra é regularmente dirigida também pelos alunos do Curso de Direção de Orquestra, servindo assim de instrumento prático para a sua formação avançada.
Estamos a falar de uma orquestra semiprofissional…
Sim, estamos. Mas, repare: se não houvesse uma orquestra deste tipo, semiprofissional, tornaria impossível uma verdadeira formação de maestros. Além disso, sem estas condições, os alunos de instrumento teriam uma perceção muito parcial do carácter e das responsabilidades do maestro e das suas formas de comunicação.
Essa partilha de experiências entre alunos e professores, entre jovens músicos e músicos profissionais, é a base do modelo pedagógico da AMEC | Metropolitana?
É, sem dúvida. Nesta casa temos um particular interesse em potenciar a interligação da formação dos alunos com a prática musical dos professores e músicos profissionais da Orquestra Metropolitana de Lisboa. Pelo que a partilha dos espaços com a orquestra profissional e a possibilidade de atuações conjuntas de alunos e professores no plano da música sinfónica – que constam da Temporada Sinfónica da OML todos os anos – são uma notável rampa de lançamento, do ponto de vista pedagógico e artístico, para um entendimento holístico dos alunos relativamente às profissões de maestro e de instrumentista.
O concerto “Retratos da Dor”, que aconteceu no final do ano passado, foi um bom exemplo desse cruzamento…
Sim, é um bom exemplo. Esse concerto teve outra particularidade: é que face às provas dadas, nos últimos anos, pela Orquestra Clássica (formada pelos alunos dos cursos secundários da Escola Profissional da Metropolitana), a Direção Artística, ouvida a Direção Pedagógica da Metropolitana, decidiu dar a oportunidade a estes jovens de integrarem, pela primeira vez, a Orquestra Sinfónica da Metropolitana com os músicos profissionais. E valeu bem a pena. É uma experiência a repetir nas próximas temporadas da OML.
Mas essa não foi o único exemplo…
Não, de todo. São muitos os concertos em que a Orquestra Académica da Metropolitana, constituída pelos alunos da licenciatura em instrumentista de orquestra da ANSO, se junta à orquestra profissional, a OML, para a apresentação de repertório sinfónico. A título exemplificativo, o concerto dos dias 18 e 19 de novembro passado, com obras de Prokoviev e Shostakovitch no âmbito da comemoração da Revolução Russa de 2017, ou o concerto com a 4ª de Mahler e o «Pássaro de Fogo», de Stravinsky do próximo dia 9 de junho, no CCB, mostram bem as virtualidades artísticas, pedagógicas, e profissionais desta confluência de músicos. Estes programas de concerto permitem aos alunos desenvolverem uma verdadeira consciência sinergética do funcionamento pleno de uma orquestra, num ambiente muito próximo do de um estágio profissional.
Na história da ANSO verifica-se um crescente alargamento do leque etário dos alunos. Isso é o resultado do reconhecimento da importância da educação musical em idades cada vez menores?
Sim, é um facto. Atingimos este ano o maior número de alunos matriculados e a frequentar os diferentes cursos de licenciatura, um aumento de 21% face ao ano passado, que já tinha sido um dos melhores anos desde a fundação em 1992. Além disso, há uma clara tendência nos últimos anos para a diversificação do espetro etário: nos primeiros anos, os alunos iniciavam os seus estudos na ANSO numa faixa etária predominante acima dos 22 anos de idade. Atualmente há vários alunos a iniciarem os seus estudos superiores na ANSO com 18 anos de idade, sobretudo ao nível dos curso de instrumentista de orquestra. São ligeiramente mais velhos os que entram no curso de piano para acompanhamento e música de câmara, e é sobretudo no curso de direção de orquestra que se verifica um acesso de alunos claramente acima dos 25 anos de idade.
Como é que lê essa realidade?
Esta circunstância está claramente associada à enorme evolução que o ensino artístico especializado da música tem tido desde os anos 1990, ainda que desde então a sua trajetória de desenvolvimento tenha passado por alguns momentos de dificuldade e constrangimentos. Ainda assim, o saldo é invulgarmente muito positivo, se compararmos àquilo que se tem passado noutras áreas do conhecimento e noutros domínios académicos em Portugal. Já não é novidade alguma que os nossos diplomados são internacionalmente competitivos, e não são poucos aqueles que desenvolvem carreiras de sucesso no estrangeiro.

Em que ponto estão os processos de candidatura para a criação dos Mestrados em Ensino da Música e em Performance?
Estão a fazer o seu caminho. Fizemos, em meados de março do ano passado, uma análise pormenorizada sobre as vantagens e desvantagens de se caminhar de modo independente, ou em parceria com outra entidade de ensino superior, para uma candidatura à abertura de cursos de mestrado, quer em ensino da música, quer em performance, junto da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES). Foram quatro meses de uma discussão ampla e muito participada em todos os órgãos de governo da ANSO, acompanhada de propostas e contrapropostas concretas e muito construtivas.
E a que conclusões chegaram?
Neste momento, há já um consenso generalizado em duas questões: a primeira prende-se com a decisão de fasear a abertura dos dois tipos de mestrado, primeiramente em ensino da música, e no ano letivo seguinte em performance. A segunda refere-se ao facto de ter sido deliberada uma candidatura conjunta com uma prestigiada universidade nacional, de entre três instituições que revelaram interesse em estabelecer esta parceria connosco, e vice-versa. O nome, por enquanto, fica no segredo dos deuses.
Para lá do trabalho conjunto das direções pedagógicas, que outras parcerias externas tem a Metropolitana desenvolvido para levar a bom porto, com as suas três escolas, o seu projeto educativo, cultural, artístico e científico?
A ANSO aspira à descentralização do ensino musical e da cultura; tal é feito, ao nível das direções pedagógicas sectoriais, de modo articulado entre mim e os restantes diretores pedagógicos da EPM, professores Iva Barbosa e Carlos Simão, e Susana Henriques, do CMM. As orquestras das três escolas têm realizado vários concertos, contribuindo para a divulgação de repertórios qualificados e a criação de novos públicos em todo o país. Estes acordos revestem-se de alto valor cultural e pedagógico, sobretudo em localidades, concelhos, regiões onde eventos musicais deste género são escassos. A AMEC celebra ainda outros acordos de cooperação: animações escolares, seminários abertos, iniciativas culturais públicas, tudo isto através de um conjunto de parcerias que desenvolve diretamente com agrupamentos de escolas publicas de toda a área metropolitana, com colégios particulares, com casas de cultura, museus, fundações, e ainda com outras instituições de ensino superior de Norte ao Sul do País.
Além da presença regular de músicos convidados aqui na Metropolitana…
Sim, exatamente. As Masterclasses realizadas na ANSO com solistas conceituados, professores do ensino superior de outros países, e maestros convidados de reconhecido mérito têm sido muito importantes. Além disso, os nossos alunos também são incentivados a participar em cursos de curta duração no estrangeiro, para os quais pode ser concedido algum apoio financeiro. Aliás, o aumento recente da presença de alunos da ANSO em Masterclasses no estrangeiro e a de professores estrangeiros realizando Masterclasses nesta instituição, e vice-versa, reflete bem o nosso interesse institucional crescente pela internacionalização, que teve já dois momentos altos: alunos de trombone da Escola Superior de Música e Teatro de Leipzig que vieram juntar-se, com o seu professor, Thomas Leyendecker (por sinal, o trombonista principal da Filarmónica de Berlim) aos nossos alunos e professor de trombone da ANSO, Reinaldo Guerreiro, num curso intensivo em agosto de 2017, e mais recentemente, um estágio, realizado também nas nossas instalações e com os nossos docentes, no quadro do Programa Erasmus+, dirigido 16 alunos e dois docentes do Conservatório de Banska Bystrika, na Eslováquia.
Que papel têm os pais e encarregados de educação na formação dos alunos?
Na Metropolitana procuramos sempre ter os encarregados de educação por perto. O seu papel é vital para o sucesso dos nossos alunos. O seu papel é, por assim dizer, o de um coautor educativo: o trabalho de aperfeiçoamento técnico-artístico, desde a infância, passando pela adolescência até à idade adulta, pelo menos daqueles que na ANSO optaram por enveredar por um caminho de músico profissional, terá sempre manifestações mais ricas e estimulantes com a presença dos encarregados de educação, dos pais, dos familiares. Seja pelo seu incentivo à melhoria dos conhecimentos e atitudes, seja por poderem testemunhar, de modo particularmente sentido e pessoalmente intenso, o desenvolvimento da cultura e dos saberes dos seus educandos.