Está a cinco meses do final do seu mandato e garante que ainda não fez as malas. Mas, se isso acontecer, diz que será “normal”, “saudável” e até “desejável”. Está em funções de 2013. Diz que o nível da OML é hoje excecional. Numa longa entrevista, num registo mais intimista, fala de autoridade e dos afetos com os seus músicos, que são “dos melhores do país e do mundo”, explica como se prepara sozinho, e como foi trabalhar em tempos de pandemia. E deixa uma mensagem para o futuro: a OML já deu um “grande salto”, mas o maior de todos… só quando tiver “a sua própria sala de espectáculos”.

Foi uma temporada muito atípica, invadida por algo completamente inédito como a Covid 19, que obrigou a um confinamento pelo qual nunca tínhamos passado. Que balanço é possível fazer desta temporada?
É um balanço necessariamente misto, porque, por um lado, tivemos um arranque de temporada absolutamente excecional, entre setembro e a primeira semana de março, e depois, em março, tivemos uma queda abrupta. Muitas vezes, fala-se dos vários tipos de queda na atividade económica: quedas em V, em U… Neste caso, foi uma queda em I, ou seja, de um instante para o outro, confinámos e simplesmente deixámos de ter atividade.
A Metropolitana e todas as congéneres no mundo inteiro…
Sim, exatamente. Nós e todas as congéneres. A grande dúvida no início de março era “o que fazer?”, “como rearrancar?”, “quando retomar?” Devo dizer, para começar pelo fim, que nós rearrancámos num dia simbólico, que foi o dia que tínhamos previsto para o concerto do 28.º aniversário da AMEC|Metropolitana. E nesse sentido, isso foi muito bom. “Regresso entre Amigos”, no CCB, foi um concerto notável, com sala cheia neste “novo normal”, o que, com o distanciamento social da plateia, representa cerca de 45% da lotação real da sala. Tivemos 640 pessoas, o que significa que, nas atuais circunstâncias, a sala estava a abarrotar.
O que prova que as pessoas estavam ávidas de voltar a ver música clássica…
Absolutamente. Nós tivemos, aliás, histórias incríveis. Depois do “Regresso”, fizemos dois concertos do ciclo “Música na Biblioteca”, que já vai na sua oitava edição, na Biblioteca Nacional de Portugal. Desta vez, tivemos muito mais gente do que o habitual a comprar bilhete e a acabar por não conseguir ir à última hora. Quer dizer que as pessoas tiveram a vontade, foram impelidas a comprar, mas que depois, por receio ou outra razão, não puderam estar presentes. E houve gente que quis dar mais dinheiro do que o próprio preço do bilhete, o que é uma coisa inédita. E que prova a enorme sensibilidade das pessoas, percebendo que tínhamos passado por uma fase difícil.
Acha que essa “enorme sensibilidade” de que fala é fruto da conjuntura ou é algo que fica estruturalmente? Ou, perguntando de outra forma, a pandemia mudou a essência das pessoas?
Estou convencido que mudou alguma coisa na cabeça das pessoas. E vejo-o por experiência própria. No meu caso pessoal, o confinamento levou-me a recentrar as prioridades pessoais e profissionais.
E isso condicionou a preparação artística da próxima temporada?
(pausa) Diria que a próxima temporada, ou até mesmo as próximas temporadas, terão uma programação um pouco… diversa. Mas no meu caso pessoal, inverti e recentrei prioridades. Nos tempos próximos, acho que se vai notar essa avidez do público de voltar à sala de espectáculos. Nessa medida, este final de temporada foi uma muito boa surpresa. Foi uma construção difícil, começando com um concerto gratuito para os nossos Amigos, que são o nosso público mais fiel, para os convidar a voltar à plateia. E o sucesso foi muito grande. Até porque nas semanas seguintes, já pagando bilhete, esgotaram-nos as salas.
Este regresso foi também muito bom para os próprios músicos da Orquestra…
Absolutamente. Os nossos músicos estavam divididos, provavelmente como a própria sociedade. Por um lado, “sim, quero muito recomeçar”, porque o músico é como um pássaro, precisa de cantar e durante meses teve o bico amarrado. Por outro lado, havia receio natural, porque temos músicos em grupos de risco, ou músicos que vivem com pessoas de grupos de risco. Portanto, conjugar estes dois fatores foi muito importante.
Como se conseguiu essa conjugação?
A Metropolitana tem uma excelente equipa de produção. Pequenina mas excelente equipa de produção, liderada pelo João Pires. Portanto, investimos muito na produção. Conseguimos em conjunto encontrar as melhores formas de distribuir as pessoas pela sala, mantendo toda a gente à distância necessária, partindo da base da DGS, mas sendo ainda um bocadinho mais papistas que o Papa. Tudo para oferecer parâmetros de segurança ao público mas, sobretudo, aos nossos músicos. E eles responderam de forma soberba.

O Pedro é Diretor Artístico da Metropolitana desde 2013 e Maestro Titular da OML desde 2018. Como é que foi a sua relação com os músicos nestes três meses de confinamento? Distante física e artisticamente, porque não ensaiavam juntos, mas com que proximidade?
Formalmente, fui indicado como Maestro Titular da OML em 2018, mas de facto eu já exercia essa função desde 2013. Acumulava as duas funções. Porque é que eu estou a dizer isto? Porque um Maestro Titular que seja só Maestro Titular e um Diretor Artístico que seja só Diretor Artístico não pensa da mesma forma, não tem as mesmas contingências de alguém que acumular as mesmas funções. E neste caso, eu tenho uma parte artística com os meus músicos, mas tenho uma parte de gestão de recursos humanos. E essa dupla vertente faz-me estar muito próximo deles sempre. Então, para responder à sua questão, ao longo de confinamento, estive muito próximo de alguns dos nossos músicos. Telefonava uma vez por semana, trocávamos muitos emails, trocávamos propostas. A relação foi muito próxima. Não diria que foi tão próxima como se não tivesse acontecido nada, mas comuniquei com os músicos permanentemente.
Portanto, mesmo parada, a equipa não se dissolveu.
De todo. Tivemos pessoas mais ansiosas, outras menos ansiosas, como em toda a sociedade. Mas a equipa não se dissolveu.
Se é facilmente entendível que o sucesso de uma orquestra depende muito da dimensão e da qualidade de um maestro, a inversa também é verdadeira? O sucesso de um maestro depende também muito da dimensão e da qualidade dos seus músicos?
(sorriso) Uma relação entre uma orquestra e um maestro é uma relação a dois. E é como uma relação entre dois seres humanos. Seja lá que tipo de relação for. De amizade, de fraternidade, de amor. É uma questão de química. E neste par, há pares que funcionam. Um maestro pode ter uma química incrível com uma orquestra e não ter com outra. A orquestra pode ter uma química incrível com um maestro e não ter com outro qualquer.
…
Nesse sentido, claro que um dos elementos do par faz o outro elemento do par. Falou em dimensão e qualidade. Mas eu não diria dessa forma. Não sendo eu um grande adepto futebolístico, vou citar um grande treinador (primeiro jogador, depois treinador), o Cruyff, que já desapareceu. Ele dizia uma coisa que me parece certeira: “deem tempo e espaço a um jogador médio e ele fará coisas extraordinárias”. E eu acho a mesma coisa em relação a um músico.
É isso que tem feito na Metropolitana? Repare que eu não lhe perguntei se se sente o Cruyff da Metropolitana…
(Gargalhada) Eu espero que sim (sorriso). Um músico é uma pessoa excecionalmente dotada. É um profissional que trabalha desde a infância para a função que exerce. Conhece o seu instrumento como a palma das suas mãos. É uma extensão do seu corpo. Portanto, um músico pode dar muito mais do que aquilo que dá em orquestra. E, portanto, o meu trabalho enquanto diretor artístico é valorizar isso. As pessoas há muitos anos têm vindo a dizer que a Metropolitana progrediu muito, que a Orquestra Metropolitana de Lisboa está a tocar como nunca tocou. E eu agradeço sempre o elogio, claro, mas a verdade é esta: eu não tenho uma varinha mágica. E, portanto, há outros colegas meus que fazem um trabalho excecional também, mas o meu trabalho enquanto maestro e diretor artístico vai mais além.
Quer concretizar?
Sim. O meu trabalho tem de ser mais do que uma boa técnica de ensaio, que qualquer maestro tem de ter, mais do que a visão das obras, que também tenho de ter. Um maestro que acumule a função de diretor artístico, como é o meu caso, tem de ser um gestor de recursos humanos que puxe e valorize cada um dos elementos da sua equipa. E, portanto, o meu trabalho diário é criar oportunidades para que os nossos músicos se sintam valorizados. E se eles se sentem valorizados, têm uma destreza técnica muito mais aguda, porque trabalham para projetos mais estimulantes.
E provavelmente muito mais difíceis…
Ah, seguramente. Quando temos um músico que é um tutti da orquestra, que passa a maior parte do tempo a tocar o que os outros tocam, e lhe pedimos que vá tocar um concerto de Mozart, de Luís de Freitas Branco ou um concerto de Lopes Graça em frente à orquestra, aquilo que ele vai fazer é tão mais difícil, que ele passa seis ou oito meses a treinar para aquilo. E repare que eu não disse ensaiar, mas sim treinar, porque eu acho que um músico é verdadeiramente um atleta de alta competição. Portanto, o seu nível técnico vai estar muito mais elevado. Mais do que isso, o seu nível anímico está muito mais elevado.
O Maestro já falou aqui várias vezes na gestão de recursos humanos. E a minha pergunta vai nesse sentido. Como é gerir recursos humanos num coletivo composto por vários artistas, em que cada um tem a sua personalidade, as suas fragilidades, as suas debilidades, os seus egos? Nem toda a gente reage da mesma forma. Isto não é uma linha de montagem.

(sorriso) Boa pergunta! É um equilíbrio muito difícil e está a tocar num ponto central. É um equilíbrio muito difícil que só pode ter como critério a racionalidade. Na verdade, quando eu apresento uma temporada, que vai de setembro de um ano a julho do ano seguinte, eu apresento um mapa com a atividade diária de cada um dos 37 músicos ao longo de todo o ano. Ou seja, apresento um mapa com tudo aquilo que um músico faz (ou não faz) ao longo da temporada. É uma gestão quase administrativa: olha-se para o mapa e o músico percebe se naquele dia x está a tocar ou está de folga, que peça vai tocar no dia y e por aí fora. Ao fazer isto, tenho de fazer de uma forma objetiva, partindo do princípio que todos são iguais.
E são?
Do ponto de vista administrativo, são. Isso é fundamental. Um diretor artístico lida diariamente com problemas: um músico está de baixa, um músico que pede uma licença sem vencimento. E muitos pedem. Um diretor artístico de uma orquestra lida com dezenas de pedidos de licenças sem vencimento por ano. Porquê? Porque os músicos são muitas vezes convidados a fazer um trabalho com determinada orquestra, ou a atuarem como solistas. Ora, cabendo-me decidir sobre, sim ou não, se um poderá estar livre em determinada semana, eu só posso ter um critério absolutamente cego e igual para todos os músicos. Caso contrário, o maestro poder ser acusado de favorecimento. É esse também o meu trabalho. Eu não posso permitir que me acusem de ser injusto. E ninguém o faz. Porque isso quebraria a confiança entre o maestro e os músicos.
É uma relação muito rígida, já percebi. Não há lugar ao afeto nessa relação?
A este nível não pode haver lugar ao afeto. Há noutros parâmetros.
Em que parâmetros?
(riso) Ok, vamos lá então. Uma coisa é a parte administrativa, outra é aquilo que o maestro propõe aos músicos. Eu procuro criar oportunidades para cada um dos 37 músicos da orquestra. Mas há muitas pessoas que se sentem confortáveis com o que fazem e que, na fase em que se encontram das suas vidas e das suas carreiras, simplesmente não querem responder a novos desafios, o que é perfeitamente legítimo. Outras há, pelo contrário, que querem imenso e agarram todas as oportunidades. Poder-se-ia pensar que são aqueles que têm menos oportunidades e estão menos valorizados na orquestra que aceitam tudo. Mas não é. Curiosamente, quem aceita mais coisas são as pessoas que já têm mais oportunidades e que querem ter mais ainda.
É aí então que o afeto é indisfarçável…
(risos) Também não. Aí também não pode haver afeto. Ou pelo menos, se houver, tem de ser um afeto secreto. Eu não trato nenhum músico da orquestra por tu.
Por alguma razão substantiva?
Sim. Tem de haver uma distância.
E essa distância só se consegue no tratamento mais formal?
Para mim, acho que é a melhor forma. Talvez consiga de outra, mas para mim foi esta que escolhi para interpor entre mim e os músicos uma distância, que lhes permita ter em mim confiança profissional, mas que não sintam que estou afetivamente mais próximo de uns do que de outros.
Em que momento se apercebeu disso?
No momento zero. Logo no início. Antes de entrar, tomei essa decisão. Há muitas equipas que são dirigidas assim. Perdoe-me a comparação abusiva, mas é apenas a título de exemplo: o Governo do primeiro-ministro Sá Carneiro. Ele tinha muitos ministros que tratava por tu e outros que não tratava. Quando chegava ao Conselho de Ministros, tratava toda a gente por você. Porque não queria que os ministros sentissem a diferença. Isso é fundamental. E há outra coisa, neste tipo de relações, eu não tenho de agradar a ninguém, tenho só que ser um muito bom profissional. Isto é válido de mim para eles e deles para mim.

Mas depois, obviamente, tem relações mais próximas na orquestra, ou também é parcimonioso na gestão dos seus afetos?
(riso) Não, não lhe escondo que há pessoas da orquestra por quem tenho uma enorme afetividade, mas em nenhum momento isso interfere com o lado profissional. E o contrário também é verdadeiro. Há pessoas na orquestra com quem eu tenho muito menos química e não deixo de dar as mesmas oportunidades.
Sente essa reciprocidade dos músicos da orquestra?
Acho que sinto, embora, como isto foi uma decisão minha, é mais claro da minha parte para eles do que deles para mim. Tenho pessoas que manifestam imensa afetividade por mim e tenho outras que manifestam imensa distância.
Temos falado, sobretudo, do diretor artístico. Falemos então do maestro. Como é essa relação com os músicos?
É ainda mais complicada (sorriso). É uma relação de autoridade, em primeiro lugar. Porque, quer queiramos quer não, o intérprete é o maestro. A orquestra acaba por ser um meio para ‘construir’ a interpretação do maestro, o que mostra também uma enorme generosidade dos músicos de orquestra, que sabem que estão ali para servir uma interpretação.
Que tipo de autoridade é essa?
Em música só há um tipo de autoridade: aquela que advém da competência. Qualquer outra forma de autoridade é fictícia. Isso exige uma grande preparação. Eu quando entro na sala de ensaio, tenho de ter a certeza e a segurança de que sou a pessoa mais bem preparada em relação às obras que vamos tocar. Tenho de conhecer as obras que vamos tocar melhor do que os músicos.
Esta resposta legitima a pergunta que se segue: como é que um maestro se prepara? Durante o confinamento fomos vendo nas redes sociais da Metropolitana, os músicos a ensaiar com os seus instrumentos, em vídeos exclusivos que foram sendo publicados. Mas… e um maestro? Sem instrumento, sem músicos profissionais à sua frente, como é que o Pedro se preparou?
(riso e pausa) É uma pergunta muito interessante. Pois… Está aí a tocar em duas questões ao mesmo tempo. Primeiro, como é que um maestro se prepara? Porque ele está sempre sem gente à frente. E em segundo lugar, como foi especificamente no confinamento. Dir-lhe-ia que um maestro se prepara da forma mais estranha e mais próxima do compositor. Um músico tem o seu instrumento à mão e, portanto, prepara-se diretamente com o seu instrumento. Há uma exceção que eu sempre admirei: a do enorme pianista Walter Gieseking, que tinha a tecla à flor do dedo, mas ele estudava as obras longe do teclado, e só quando tinha a obra memorizada é que começava a ir ao piano.
Portanto, primeiro absorve tudo em teoria e depois parte para a prática…
Exato. E o maestro é exatamente assim. São dezenas de horas de estudo. Quando entro na Metropolitana de manhã, já levo duas horas de estudo das minhas partituras. A minha dieta diária é esta. Eu acordo muito cedo, trabalho as minhas partituras, compasso a compasso. A maior parte delas, memorizo-as. Preparar significa ter uma imagem absolutamente clara de como eu quero ler cada compasso. Porque cada compasso pode querer dizer coisas diversas. E é isso que eu estudo diariamente. O primeiro momento em que eu estou com o meu instrumento, que é a orquestra, é no primeiro ensaio. No caso do confinamento foi muito pior. O nosso trabalho faz-se com um fito: quer queiramos, quer não, temos de saber esta obra x na ponta da língua porque tenho um concerto dentro de dias. Aqui não havia concerto, não havia obrigatoriedade, horizonte temporal. E isso foi muito estranho.
E assim sendo…
Assim sendo, comecei vagamente a estudar a Sinfonia Escocesa de Mendelssohn, que se tudo correr bem irei dirigir no mês de setembro. Mas não cheguei ao fim do estudo, foi tudo com uma grande lentidão, porque precisamente não havia essa urgência do tempo.
E um maestro tem de ter essa urgência, essa disciplina…
Claro. E eu sou muito disciplinado quando tenho um fito. Muito disciplinado na minha organização temporal. Mas tenho de ter um objetivo concreto. E neste caso não tinha. Portanto, o maestro ficou um pouco e suspenso e o diretor artístico passou ao terreno. Como tal, fiz e refiz o plano da nova temporada várias vezes, até que cheguei a um ponto de equilíbrio.
Vamos a ela, então. A temporada 2020/21, que vai começar em setembro, depois das férias, volta a ter a ameaça da Covid, como acontece em todas as áreas de atividade. A qualquer momento, poderemos ter de fazer marcha-atrás. De que forma isso pesou na próxima temporada da Metropolitana?
Apresentei como mote da Temporada 2020/21 da OML “O Princípio da Incerteza”, que é uma fórmula que reflete a visão que o físico Heisenberg nos propõe no final dos anos 20: num ambiente quântico, se a posição da partícula nos é dada por duas coordenadas, uma temporal e outra espacial, quanto mais certeza tivermos quanto à posição da partícula no tempo, mais incerteza teremos em relação à posição no espaço.
É uma bela metáfora para os tempos de incerteza em que vivemos…
Ora, nem mais. Na nova temporada, havemos de nos governar a partir desta teoria. Ainda assim, paradoxalmente, será uma temporada mais rica do que as temporadas normais. Para lá dos projetos que já estavam previstos, reagendámos concertos que não pudemos levar a cabo este ano por causa da pandemia. A grande dificuldade foi conseguir construir um fio condutor e coerente, que eu julgo que existe, sempre baseado nesta ideia de O Princípio da Incerteza, com todas as suas metáforas e ramificações. E, portanto, teremos uma temporada riquíssima, que de entre os três ciclos Barroco, Clássico e Sinfónico, mantém apenas dois deles.
Cai a Temporada Barroca, por causa, precisamente, da incerteza.
Sim, não vamos conseguir fazer a Temporada Barroca, que é habitualmente feita numa sala como o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA). Ora, pelo menos até dezembro, é impossível ter uma relação de racionalidade numérica entre o número de músicos em palco e uma plateia com distanciamento social. Não é possível ter uma relação de proporcionalidade económica mínima entre o que está a decorrer em palco e o número de pessoas que podem comprar um bilhete. Se tudo correr bem, se ultrapassarmos a pandemia e se for possível revogar, em segurança, as normas de distanciamento social, a Temporada Barroca voltará a acontecer a partir de janeiro. Veremos.
E as outras temporadas?
A Clássica vai manter o redimensionamento da quantidade de pessoas que participam no espectáculo. Haverá quatro concertos da Temporada Clássica entre outubro e dezembro. Da mesma forma, haverá quatro concertos da Temporada Sinfónica até ao final do ano, sendo que todos estes concertos têm uma característica comum: não terão intervalo. Vamos ter público esparso, em número inferior ao da capacidade das salas e vamos concentrar as pessoas o menor tempo possível dentro do espaço fechado. Daí termos retirado os intervalos.
É bom que o público perceba esta questão da segurança e os esforços que são feitos pelas organizações para que tudo corra bem.
Sim, é absolutamente verdade o que diz. E há mais. Eu como diretor artístico tenho de inventar espectáculos que custem menos. Porque se faço metade da bilheteira, não posso ter os mesmos custos em palco. Acho que as pessoas percebem isto facilmente: ninguém pagaria o dobro do preço do bilhete, para suportar a cadeira vazia que, por segurança, tem ao seu lado.

E foi possível reduzir os custos da temporada?
Claro que sim, reduzi os custos. Programei espectáculos que julgo serem bastante apetecíveis (risos). Ia dizer irresistíveis, mas arriscar-me-ia a parecer imodesto. Mas são apetecíveis, mais multicolores, para atrair mais gente.
Concertos e compositores mais clássicos e menos contemporâneos?
Não necessariamente. Há essa ideia de que os compositores clássicos atraem mais público do que os contemporâneos, mas é uma ideia falsa. Entre setembro e dezembro, teremos três obras contemporâneas, duas delas em estreia. E, se nos mantivermos em níveis pandémicos iguais aos atuais, estou disposto a apostar um jantar num belíssimo restaurante de Lisboa em que vamos ter aquelas salas cheias. Portanto, não é por aí.
Portanto, está otimista…
Estou. São concertos muito apetecíveis, espero eu. Com esta ideia de que os poucos lugares que temos para vender têm de ser todos vendidos.
Não está otimista, está muito otimista…
Tenho de estar. Dir-me-á que tenho uma perspetiva materialista da música. Faz parte da minha função de diretor artístico. Tenho um orçamento para gerir e orgulho-me de dizer que o orçamento artístico da Metropolitana se equilibra em receitas e gastos. Quer dizer que por cada euro que a casa me dá para programar, eu devolvo à casa mais que um euro de receitas. Essa é a base material e venal da minha função.
O Pedro entrou aqui em 2013 e estamos em 2020. O seu mandato termina em dezembro deste ano. Como é que tem sido trabalhar sob a liderança do novo diretor-executivo, Miguel Honrado, que está em funções desde fevereiro, após a saída de António Mega Ferreira?
São dois perfis muito diferentes, sendo que Miguel Honrado também trabalhou com Mega Ferreira há muitos anos. É uma sucessão natural e boa. O Miguel é uma pessoa com um currículo de gestão artística importante e respeitado e tenho a certeza que fará uma gestão técnica, financeira e organizacional excelente para a casa. Tem um grande líder do ponto de vista executivo. Trabalhar com o António Mega Ferreira para mim foi um desafio extraordinário. Porque o Mega é um caso único e improvável de consubstanciação entre o gestor e o poeta, entre o artista e o decisor. Eu sempre vi o Mega como um príncipe florentino. E, portanto, ele é o príncipe, o mecenas. Mas ao mesmo tempo, é um fazedor, até no sentido Borgiano do termo, que ele tanto gosta. Durante muitos anos, fiz com o Mega uma parceria extraordinária, porque um dizia “mata!”, o outro dizia “esfola!”. Foi das experiências profissionais mais relevantes da minha vida e um privilégio poder absorver dele e preparar-me com ele. O Miguel já é outra geração, e uma forma diferente de pensar…
… e isso pode ser uma vantagem no que toca aos desafios estruturais com que a AMEC | Metropolitana se depara.
Aliás, eu acho que os desafios mais importantes não estão do lado da direção artística mas sim do lado da direção executiva. Porque não é compreensível que uma instituição que vai fazer 30 anos daqui a dois anos ainda tenha uma tal instabilidade financeira. Ou seja, nós neste momento geramos mais-valia, excedente financeiro, mas temos ainda um lastro antigo que temos de continuar a gerir. Os principais desafios que se colocam à direção executiva são a estabilização financeira, o financiamento da instituição e a obtenção da sua própria sala, que é, quanto a mim, a pedra de toque da Metropolitana, que fará com que a instituição sobreviva indo atrás da história ou, pelo contrário, passe a dar cartas na história.
O salto fundamental da Orquestra Metropolitana de Lisboa depende disso?
Não tenho a menor dúvida. A OML tem uma potencialidade extraordinária e precisa absolutamente de dar esse salto fundamental. E só o fará quando tiver a sua própria sala de concerto.

Isso será óbvio também para o público? Acha que o público olhará para a Metropolitana com outros olhos quando a OML não andar a saltar de casa em casa, como até aqui, com os seus parceiros históricos?
Absolutamente, mas o público ainda não o sabe. Eu aprecio muito aquela ideia do Steve Jobs, que eu acho absolutamente genial. Ele dizia: “eu não gosto de estudos de mercado porque o público não sabe o que quer. O público sabe o que quer dentro do que existe. Mas cabe-nos a nós criarmos coisas que não existem, criar necessidades que o público ainda não sabe que tem, criar produtos que vão ser fundamentais para o público e que o público agora nem sonha que podem existir”. Creio que o diretor artístico tem exatamente a mesma função. Quando o Steve Jobs inventou o iPad, ninguém imaginava que ele pudesse vir a ser necessário. O mesmo se passa com a Metropolitana. O púbico gosta de nós, em sete anos duplicámos o público dos nossos concertos.
Mas esta é a Metropolitana que o público conhece…
Exatamente. O público não tem a noção do que é a Metropolitana com a sua própria sala. Nem tem de ter, porque ela não existe. É uma sinfonia que ainda não foi escrita. Cabe ao diretor artístico, sobretudo, e ao diretor executivo também, criar todas as condições para que essa nova orquestra exista. Uma coisa eu acredito: quando a OML tiver a sua própria sala, poderá vir a ser a grande orquestra nacional e uma das grandes orquestras da península.
Sei que gosta de futebol. Aliás, já citou Cruyff há pouco. Alex Ferguson, o célebre treinador escocês, treinou o Manchester United durante 27 anos. Quantos anos é que o Pedro se vê a comandar a Metropolitana?
(gargalhada e pausa) Vejo-me na Metropolitana durante dois mandatos. O meu segundo mandato está a terminar e a perspetiva que eu tenho é essa. Depois se verá. Mas a minha perspetiva são dois mandatos.
Tem isso definido na sua cabeça desde sempre, ou é uma ideia que já lhe fizeram chegar?
Tenho definido isso na minha cabeça. Estou sempre pronto para sair no final do meu mandato. Acho que isso será absolutamente natural, se acontecer, e acho que as instituições têm de se renovar. Vamos chegar ao 30.º aniversário desta casa e acho que faz todo o sentido haver uma nova direção. Não estou a dizer que isso vai acontecer, de todo, mas se tal acontecer, acho perfeitamente natural. É um caminho possível e até o mais desejável.
Desejável até na relação entre o maestro e os músicos?
Claro, claro. Absolutamente. A Orquestra chegou a níveis excelentes. É preciso dizer uma coisa: até 2013, a OML atingia de vez em quando níveis excecionais, quando por exemplo era dirigida pelo Maestro Zilm, uma, duas, três vezes por ano. O que era menos bom era o nível médio da OML. Oitenta por cento das suas atuações tinha apenas um nível mediano. A realidade hoje é outra: o nível da Orquestra Metropolitana de Lisboa, hoje, num concerto médio, é muitíssimo elevado. Penso que isso é consensual. A crítica reconhece-o.
Isso é mérito seu?
Os músicos já sabem o que esperam de mim e eu já sei o que espero dos músicos. Essa relação existe como tal, mas faz-me todo o sentido que num próximo mandato haja outro maestro titular. É claro que é muito difícil ver o mundo sem pessoalizar as coisas, mas acho que quando olhamos para uma instituição, não devemos pessoalizar. Temos de ver o que é o melhor para o coletivo. E eu admito que ao fim de dois mandatos possa ser momento de mudança.
Terminamos de forma difícil, admito, até porque é sempre difícil ser juiz em causa própria. Mas quando sair da Metropolitana, como é que gostava de ser lembrado?
(sorriso) Isso é muito difícil… (pausa) Eu gostava de ser lembrado como alguém que levou a Orquestra a um ótimo nível artístico e que valorizou cada um dos seus músicos. Acho que é isso.
É esse o seu legado?
Sim, ter deixado obra do ponto de vista da direção artística, oito temporadas coerentes e estimulantes. E ter construído uma grande equipa. Porque estes músicos são excecionais. Nós temos alguns dos melhores músicos portugueses e alguns dos grandes músicos a nível internacional. As pessoas não têm noção disso, mas eu tenho porque trabalho todos os dias com eles.
