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Entrevista a Maria de Macedo, violoncelista e pedagoga

 

“Na vida não pode faltar a poesia e o amor”

 

Começou por querer cantar aos nove anos. Mas os pais disseram-lhe que não. Optou então pelo violino, mas também não foi desta. O violoncelo, a terceira escolha, acabou por ser a sua vida. A paixão por Schubert fez o resto. Aos 87 anos, Maria de Macedo continua a partilhar o seu amor à música e à poesia, sem a qual a vida não faz sentido. Interrompemos a masterclasse de três dias que deu na Metropolitana e roubámos-lhe meia hora. Teríamos ficado duas horas, tal o magnetismo das suas palavras e a vivacidade do seu olhar.


A sua vida está há muitos anos centralizada em Madrid, Espanha. Como foi esta sua presença em Lisboa, nesta Masterclasse que veio dar à Metropolitana?

Foi muito boa, estou muito feliz por aqui estar. Chegar a Lisboa depois de todos estes anos, e para dar uma formação como esta, é um momento muito especial para mim e que me causa uma grande emoção.

 

Quando olha para trás, como foi a sua vida?

É sempre difícil fazer uma análise da vida quando olhamos para trás. Eu creio que uma pessoa vive sem analisar o que vive. A vida aparece. A vida, cada dia, pode ser uma surpresa. Podemos projetar uma coisa e sai outra. A vida manda. Nós não mandamos na vida. É o que eu penso.


Mas as escolhas que fazemos não interferem nesse correr da vida? A nossa vida não é um somatório de escolhas?

Claro que sim, fazemos escolhas. Mas nem sempre a vida consente que façamos as nossas próprias escolhas. É por isso que eu digo que a vida manda.


No seu caso, a Maria fez as suas escolhas ou foi empurrada pela vida?

Não, não. Fui empurrada pela vida.


Mas não há nada de seu na forma como a sua vida foi sendo vivida?

Basta conhecer a minha vida para perceber que eu fui empurrada pela vida.


Não há aí um pouco de modéstia da sua parte?

Não, não é modéstia. Não gosto dessa palavra. É preciso é ter uma opinião sincera daquilo que uma pessoa é. E digo isto porque, de uma forma muito sincera, tenho de dizer que não consegui concretizar os meus sonhos. E daí a sensação de que a vida mandou em mim. É óbvio que quando olho para trás percebo que tracei projetos para a minha vida, defini um caminho, sonhei. Outra coisa é ficar satisfeita com a realização desse projeto. E isso a mim não acontece. Havia muitas coisas que eu queria ter realizado, algumas muito importantes, e não cheguei a conseguir.


Que sonhos eram esses de que fala?

Bem, o sonho maior de quem tem 18 ou 20 anos e tem um violoncelo na mão é fazer carreira no violoncelo. Mas é muito difícil fazer uma carreira, sobretudo quando a pessoa deixa de ter fé em si mesma ou pensa que a sua capacidade não é assim tanta para ser extraordinária.


Mas olhe que quem a conhece bem, quem estudou consigo, quem convive consigo acha precisamente o contrário de si. E acha que a Maria é extraordinária…

Pois, não sei o que essa gente vê em mim. Eu sou igual a tantas outras pessoas. Sei tanto como outras pessoas que estudaram. Qualquer pessoa que estou como eu sabe tanto como eu. Não creio que tenha nada de especial para que as pessoas venham ao meu encontro.


Vamos dar um pulinho ao passado. Como é que o violoncelo entrou na sua vida?

[sorriso] Essa pergunta é bonita de se fazer. Primeiro entrou a música e depois o violoncelo. A música entrou na minha vida aos nove anos. Chorei a primeira vez com música aos nove anos. E foi com Schubert. Disse então aos meus pais que queria cantar. E, claro, os meus pais disseram: “cantar? Não se pode cantar aos nove anos!”. Portanto, como era preciso pensar noutra coisa e eu gostava de música, fiquei fascinada pelo violino. Mas como não havia nem violino nem professora, deixámos isso de parte. Até que apareceu Casals [Pau Casals, famoso violoncelista catalão] e convenceu-me.


Portanto, até aí a vida mandou em si…
[risos]

Ora vê, como eu tinha razão quando lhe disse que a vida mandou em mim? Nessa altura então, havia violoncelo e professora e, pois bem, violoncelo. Foi assim que ele chegou à minha vida. Mas primeiro a música e Schubert, um grande amor.


Um amor que ainda hoje se mantém…

Sim, sim. E por isso há uma fundação que eu tentei criar. E a fundação chama-se Franz Schubert.


O que é que a apaixonou em Schubert?

O que apaixonou a outros e não sabemos descrever. É o mistério da música. Por que razão nos apaixonamos por Schubert e não por Bach ou Beethoven? Não sabemos dizer. Há, naturalmente, alguma coisa para explicar. Eu fui uma criança que não foi a colégios nem a escolas, vivi sozinha muitos anos e não tive convivência com crianças da minha idade, até entrar no Conservatório, já aos 12 ou 13 anos.


Sentiu essa falta?

Claro que senti. E ainda sinto hoje. Eu não tenho amigos de infância. É uma vida solitária de criança. Creio que isso me criou uma espécie de solidão que nunca me abandonou o resto da minha vida. Sempre me sinto sozinha.


Em que é que essa solidão se manifesta ainda hoje?

Manifesta-se em tristeza, muito simplesmente. Quando as pessoas dizem que têm de descansar, eu arrepio-me. Não, eu tenho de trabalhar. Porque quando descanso, penso. E quando penso, penso sempre em direção à tristeza. Por isso, prefiro trabalhar e dedicar-me à música e à partilha. Daí a minha felicidade por ter estado estes dias aqui na Metropolitana.


Esta masterclasse que deu aqui não é uma coisa muito habitual em si. Porque essa solidão de que fala também se manifesta na forma como sempre tem partilhado os seus conhecimentos. Menos em escolas, como desta vez, e mais em sua casa. Ou seja, não tem sido a Maria a ir ter com os alunos, mas os alunos a irem ter com a Maria. Porquê essa opção?

Cada pessoa tem uma característica própria. Depois, essa disposição para essa atitude sempre melancólica também leva a uma certa cultura do espírito. Essa cultura manifesta-se na forma de eu escrever. Muito em poesia. Também me levou a entender que na vida a poesia tem de estar em toda a arte. Para existir arte tem de existir poesia.


Houve sempre poesia na sua vida?

Na vida tem de haver sempre poesia e amor. E quando não há, é a solidão e o nada que tomam conta de nós. E nessa altura tanto faz viver como morrer. É a não-existência. Só podemos existir com uma vida interior e isso só se consegue quando a coluna vertebral da vida é o amor. Em todas as formas, que são múltiplas. Quando me faltar o amor, prefiro morrer.


É também essa sensibilidade que tenta partilhar com os seus alunos?

Claro, claro. Isso provoca-me um interesse pelas coisas que faço. E é essa sensação e esse amor à música, que eu sei que ainda posso comunicar, que me fazem avançar. É isso que ainda me permite comunicar com alunos sobre música. É que eu não perdi essa sensibilidade e esse amor à música. No dia em que eu sentir que não sou capaz de acrescentar algo aos meus alunos, saio de cena.


É essa capacidade de comunicar com os outros, e sobretudo com os mais novos, que continua a dar cor à sua vida?

Totalmente.


O que é que encontrou nos nossos jovens aqui na Metropolitana?

Não é surpresa, mas é sempre muito agradável encontrar gente bem dirigida pelos seus professores, com princípios sãos. Encontrei gente focada e com objetivos. Aprender na vida não acaba nunca. Simplesmente, a etapa de ser aluno é uma, mas depois disso há que continuar a aprender. Há sempre alguém melhor do que nós. Pensar que somos o top da nossa área é errado. Há sempre alguém melhor do que nós.


Como é que de Espanha, para onde justamente partiu há décadas por amor, tem acompanhado a criação artística em Portugal?

Por motivos familiares, durante quase 20 anos não vim a Portugal. Quando voltei, não reconheci o país. Não acreditava no que via. Quando daqui saí, há muitos, muitos anos, onde eu cresci em miúda, havia campos, vacas e bois. Quando regressei, mais de duas décadas depois, descobri que havia uma violoncelista a três casas da minha. Nem acreditei. As escolas de música em Portugal foram uma conquista enorme. A primeira etapa de crescimento de um país, seja na arte, seja na educação, seja na ciência, é conseguir que exista uma espécie de multiplicação de gente a aprender a mesma coisa. Isso é o nível básico. O nível superior já é outra coisa. Nem todo o músico tem de ser profissional. A música devia estar nas casas de toda a gente, só pelo prazer da música. Outra coisa é ser um profissional. E para sermos bons no que fazemos temos de nos aproximar dos melhores.


É esse o seu lema de vida?

É a minha forma de pensar. É esse, aliás, o objetivo da Fundação Franz Schubert, que tenho tentado colocar em pé…


… Não tem sido fácil.

Não, não tem. E não tem sido fácil por falta de compreensão, não por falta de dedicação e entusiasmo. O país, em geral, e as autoridades, em particular, não têm sabido compreender este meu sonho e objetivo. A Fundação pretende apontar para a excelência, para todos aqueles que querem ser profissionais. E isso não é para todos, é para uma minoria. E as minorias nem sempre são compreendidas.


Estamos aqui perante uma plateia de professores e alunos. Temos aqui um aluno mesmo ao lado. O que é fundamental para quem quer ser músico? Que conselhos pode dar a estes jovens?

Bem… fundamental é querer ser músico, em primeiro lugar [risos]. Depois, é fundamental que vá entendendo cada vez melhor o que é a música. A música é a tradução da vida em arte. Depois, claro, é preciso aprender o instrumento, aprender a tocar muito bem. Mas tocar muito bem ainda não é ser muito bom músico. No teatro, por exemplo, um grande ator não é só aquele que chega ao palco e diz o texto todo. Grande ator é aquele que diz, mas que sabe como dizer. Na música é a mesma coisa.


Portanto, o que me está a dizer é que um bom músico não é só aquele que é tecnicamente muito bem preparado.

Exatamente. É muito mais do que isso. A música é muito mais do que tocar muito bem. É preciso conhecimento, mas é preciso alma. É preciso amor. E é preciso respeito pelo que o compositor escreveu. É o respeito pela partitura. Por isso, eu digo sempre: “Para, pensa. Depois de pensar, sente. E depois de sentir, toca”.