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Entrevista ao Artista Associado da Metropolitana

Os equilíbrios do italiano Luca Francesconi

O compositor italiano Luca Francesconi, de 63 anos, é um dos Artistas Associados da Metropolitana na temporada que agora se inicia. Estudou Composição com Azio Corghi, Karlheinz Stochausen e Luciano Berio, e jazz no Boston Berklee College of Music.

É autor de mais de uma centena de obras para agrupamentos diversos, que se estendem do solo à grande orquestra com multimédia, tendo recebido encomendas das mais prestigiadas instituições internacionais.

Também maestro, Luca Francesconi ensina há 35 anos em conservatórios italianos e em masterclasses por todo o mundo.

Esta temporada, a convite do diretor artístico da Metropolitana, Pedro Amaral, será Artista Associado e “estreia-se” já este domingo no Concerto Inaugural, no CCB. Uma das peças tocadas, “Zero Formula, para guitarra elétrica e orquestra, é uma obra sua em estreia absoluta, e assinala os 30 anos sobre a queda do Muro de Berlim.

“O Muro de Berlim representa aqui a expectativa da destruição dos muros dos dogmas, mas tendo especial atenção às raízes. De facto, tal como na música, à primeira vista, nada é o que parece. A energia das novas forças, tal como a energia elétrica que a hoje damos por adquirida!, deve ser objeto de estudo e investigação à luz dos novos contextos”, contou o compositor em declarações à Metropolitana.

Para Francesconi, faz falta à humanidade “um conjunto de ferramentas culturais e filosóficas mais adequadas para conseguir um conhecimento e compreensão profundos”. Isto porque “as possibilidades incríveis que surgiram recentemente com toda a tecnologia” abriram novas janelas de descoberta para as quais, diz o músico, “a mente humana não está ainda preparada”.

No concerto deste domingo no Grande Auditório do CCB, a Metropolitana vai juntar o talento da sua Orquestra ao virtuosismo de Ruben Mattia Santorsa, e a sua guitarra elétrica, numa busca pelo equilíbrio sonoro dirigida pelo maestro Pedro Amaral.

A busca por esse equilíbrio é, justamente para Francesconi, um dos desígnios da sua arte. Ao olhar para trás, Luca Francesconi, um dos mais prestigiados compositores da atualidade, resume a sua carreira a uma “longa viagem a tentar encontrar saída para os dogmas negativos que surgiram em torno da Música Contemporânea, a que também chamam Música Negativa”.

E explica porquê: “A nossa geração estava distante dos anos 50 e 60. Eu queria selecionar as descobertas mais importantes dessa geração anterior e usá-las de maneira diferente. É claro que as primeiras tentativas foram demasiadamente generosas no objetivo de voltar a uma “musicalidade” evidente. O meu entusiasmo carecia de expressão, não só de cálculo”.

Por isso, diz, as suas três obras (“Vertige”, 1985, “Les Barricades Mystérireuses, 1989, e Memoria, 1990/98) “ilustram bem essa procura de uma nova musicalidade”.

O gosto de sujar as mãos


O contributo de Luca Francesconi como Artista Associado da Temporada 2019/20 da Metropolitana não se fica por aqui. Em outubro, é a vez dos Solistas da Metropolitana interpretarem dois dos seus quartetos de cordas e “Attesa”, para quinteto de sopros.

Habituado a compor para diferentes formações, e de dimensões variáveis, o compositor italiano reconhece que “diante de um pequeno ensemble, o compositor está muito vulnerável”. “Isso também acontece na ópera, ainda que de maneira diferente”, constata. Não é uma contrariedade. A música de câmara, garante, “pode tornar-se ainda mais difícil e desafiante do que quando se trata de uma grande orquestra”.

No início de junho de 2020, Luca Francesconi regressará a Lisboa, mas desta vez na condição de maestro, para dirigir, entre obras suas, duas outras da autoria de Luciano Berio e Ottorino Respighi.

Compositor, pedagogo, diretor artístico, maestro, Luca Francesconi interpreta o seu espírito em simultâneo nos diversos patamares. É assim que se realiza. “Na música gosto de uma abordagem física, de sujar as mãos”, aponta. Nada como a prática para concretizar a expressão das ideias. “É muito fácil fecharmo-nos no escritório e especular sobre diferentes teorias. Até sobre a impossibilidade da ação. Isso é fácil! A única revolução que podemos garantir é a de assegurar as responsabilidades individuais”, conclui.

A revolução vai começar. Faça parte dela já este domingo com a Metropolitana no CCB.