Enquadrados pela música de Brahms, o compositor português António Chagas Rosa e a Metropolitana celebram, este sábado, às 21h00, no Teatro Thalia, em Lisboa, os 500 anos da primeira viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães.
O concerto, em estreia absoluta, apresenta a obra “Circumnavigare”, para violoncelo e orquestra do compositor português, e ainda a Abertura Trágica, Op. 81, e a Sinfonia Nº 4, Op. 98, de J. Brahms.
Com direção do maestro Pedro Amaral, a atuação da Metropolitana terá como solista Filipe Quaresma.
A estreia da “Circumnavigare” resultou de uma encomenda a Chagas Rosa por parte do diretor artístico da Metropolitana, como confessou o compositor português ao nosso site, numa breve entrevista que nos concedeu a propósito da estreia do programa deste sábado.

– Para todos nós, é inquestionável a oportunidade da estreia de uma obra musical evocativa da primeira volta ao mundo feita por mar, particularmente por ocasião da efeméride dos 500 anos passados sobre um feito conduzido por um navegador português. E para o compositor António Chagas Rosa? O que é que mais lhe despertou o interesse para envolver-se criativamente com este episódio da nossa História?
Envolvi-me na temática relativa a Fernão de Magalhães devido ao desafio colocado pelo diretor artístico da Orquestra Metropolitana, Pedro Amaral. A ideia surgiu daí. Li na altura a biografia que Stefan Zweig dedicou ao navegador português (que deveria ser de leitura obrigatória nas nossas escolas) e senti-me arrebatado por uma vida tão ousada e inteligente. Decidi então escolher quatro episódios, ou imagens, da viagem de circum-navegação para, a partir daí, organizar a estrutura da composição.
Optou pelo formato de uma obra concertante, confiando ao violoncelo a parte do solista. O que é que determinou esta escolha? Trata-se de uma personificação da figura de Fernão de Magalhães, em contraponto com uma orquestra que se articula entre diferentes funções dramatúrgicas?
Aproveitei a oportunidade que representou o convite de Pedro Amaral, insigne compositor e maestro e meu caríssimo amigo, para fazer algo que estava já na minha cabeça: uma obra concertante para violoncelo e orquestra. Nesta escolha há uma parte de irracionalidade ou de intuição que não consigo explicar. Sempre me fascinou o reportório concertante e já escrevi para piano e orquestra, quarteto de cordas e orquestra e também para flauta de bisel e orquestra de câmara. Há uma componente atlética na escrita para solista com orquestra com a qual me identifico. No caso da presente obra existe, sim, uma certa colagem do violoncelo solista com a da figura de Fernão de Magalhães. Para dar um exemplo: a cadência que o solista tem no 3º andamento procurar ilustrar as alucinações provocadas pela calmaria incandescente do Oceano Pacífico, num largo passo da viagem quase sem comida e sem água doce.
Um dos mistérios mais fascinantes da música, é a capacidade que tem para se relacionar com representações poéticas, significados, ideias. Parece ser também um dos principais eixos criativos do seu percurso.
Neste caso, em Circumnavigare, os próprios títulos dos andamentos sugerem uma intenção programática (I. Navigare; II. Ammutinamento; III. Il Pacifico; IV. Epifania). As narrativas transferem-se para a partitura? Como é que elas participam no discurso musical?
Creio que a música, e não apenas no Ocidente, há um reflexo de uma narrativa de natureza poética, dramática ou histórica. Mesmo a dança é narrativa. Quando os teóricos alemães do início do século XIX começaram a difundir o conceito de música absoluta não deveriam ter lido aquilo que Haydn explicou detalhadamente a Stendhal em Viena sobre o programa oculto das suas sinfonias: são “bandas sonoras” de uma viagem imaginária aos Estados Unidos da América do Norte, com tempestades no meio e escravos negros no fim. Era o imaginário de Haydn. Mozart, por sua vez, era um obcecado com o esoterismo, a numerologia e a alquimia. Beethoven com o “feminino” e “masculino”, e com o cosmos… Para mim, desde que os Gregos incluíram música nas suas tragédias e comédias, a música conta sempre algo. Uma coisa que eu gostaria de fazer é música para cinema mas a oportunidade nunca surgiu. Vou entretanto juntando os meus sons à maneira de filmes imaginários que só eu vejo. Há muito pássaro na minha música, muito mar e também muitas cenas burlescas. Penso que através da composição consigo dar corpo a um pequeno comediante que reside dentro de mim. E um bom comediante, que eu não serei, é Hermes, é Papageno, é Arlechino, que voam entre o reino dos vivos e o dos mortos. Como tal, é-lhes permitido rir da vida…
