
Sete meses depois de ter chegado à Metropolitana, que balanço é que faz? Foi muito diferente do que estava à espera?
Foi necessariamente diferente por causa da pandemia, claro. Mas isso foi transversal a todo o mundo, porque o coronavírus veio trocar um pouco as voltas a toda a gente. Entrei em fevereiro na Metropolitana e, inicialmente, o que tinha planeado era que até ao verão conseguiria tomar o pulso à casa e conhecer devidamente a equipa. E isso não foi possível porque, um mês depois de ter chegado, fomos todos para casa em confinamento. Portanto, essa ideia de mergulhar a fundo nas dinâmicas da Associação tornou-se mais difícil, embora o confinamento tivesse permitido algum trabalho de casa, mas não é a mesma coisa.
Saltando por cima da pandemia, que é o que é e não há volta a dar, insisto na pergunta: o que encontrou na Metropolitana foi muito diferente do que estava à espera?
Não, não foi muito diferente, mas acabei por comprovar imensas coisas que, de alguma forma, já pressupunha. Duas das coisas que mais me impressionaram – e também aqui acho que a Covid serviu como prova de fogo – foram o empenhamento das equipas e a cultura da organização, que está muito consolidada. Se não estivesse, o que vivemos entre março e junho teria sido uma ameaça muito maior para a Metropolitana e para a desagregação deste projeto.
Porque diz isso?
O que vim encontrar aqui foi uma cultura de organização madura, um empenhamento muito grande das pessoas, uma interiorização muito grande da missão da organização. E é nesse sentido que digo que é uma organização madura. Ela própria não é passível de desagregação facilmente, há uma resiliência e uma resistência grandes às adversidades.
Acredita que as vicissitudes pelas quais a AMEC | Metropolitana passou, e as dificuldades que os próprios colaboradores da casa viveram no passado recente, contribuíram para a formação desse escudo de defesa de que fala?
Ah, sim, sem qualquer dúvida. Os vários ciclos que têm marcado a vida da Metropolitana ao longo de quase 30 anos têm contribuído muitíssimo para o amadurecimento da organização e para a tal cultura organizacional de que lhe falava, que eu acho que é invejável quando comparada com a de outras instituições. Como sabe, eu conheço várias, trabalhei em várias, e vim aqui encontrar um gregarismo que não é fácil de encontrar noutros lados. Que ainda por cima, é transversal a toda a Associação. Toda a equipa contribuiu para que a Metropolitana não desaparecesse nestes meses. Falo da Orquestra, claro, mas falo também das áreas administrativas e de gestão, e sobretudo, da área pedagógica, que me surpreendeu muitíssimo.
Porquê?
Porque revelou uma capacidade de resposta muito grande e muito eficaz. As escolas foram as mais desafiadas neste período e tiveram de implementar um modus operandi completamente diferente, para o qual ninguém estava preparado.
As pessoas têm muito a ideia da Metropolitana como uma orquestra profissional – e ela existe, de facto – mas muitas não têm a noção que a missão desta casa é fazer a simbiose entre o lado criativo e artístico e a componente pedagógica, que é a marca distintiva da nossa presença na sociedade.
Exatamente, e é essa marca distintiva que temos de continuar a cultivar. Isso é um tesouro, é um filão que nos distingue de outras organizações que também trabalham neste domínio cultural. A relação intrínseca entre pedagogia e criação é algo que habilita a AMEC | Metropolitana a definir, cada vez mais, uma estratégia que tem de ser consolidada. Além disso, esse know-how habilita muito a Metropolitana a ser uma referência em termos de políticas culturais de território.
Afirmando a Metropolitana como uma referência na educação musical?
Sim, seguramente, mas não apenas do ponto de vista formal. Aqui juntamos a educação formal e a educação musical não formal. Ao longo dos anos, e por via dessa coabitação entre a pedagogia e a criação, temos vindo a desenvolver uma grande capacidade para tudo aquilo que é a sensibilização para a cultura musical e a educação não formal, que eu acho que são matérias passíveis de grande investimento no futuro. Acredito que a Metropolitana talvez seja a organização em Portugal mais bem preparada para dar esse salto.
Há uma perspetiva de ciclo muito interessante no trabalho da Metropolitana. Muitos dos nossos músicos profissionais são professores nas nossas escolas e, por sua vez, também já foram alunos cá. Ora, isso é a prova maior do virtuosismo deste nosso lema “Uma orquestra, três escolas” [Academia Nacional Superior de Orquestra – ANSO, Escola Profissional Metropolitana – EPM e Conservatório de Música da Metropolitana – CMM].
Sim, é um ciclo virtuoso, que também acrescenta muitíssimo à dinâmica e à vivência da própria organização. Há uma relação de grande afetividade e até intimidade entre os nossos alunos, músicos e professores e a Metropolitana. E isso é muito positivo na afirmação do nosso trabalho no seu raio de ação territorial, que neste caso pode ser ainda mais alargado.
Há caminho para que a Metropolitana, continuando a atuar em todo o país e até no estrangeiro, possa contribuir para o reforço da coesão metropolitana em Lisboa?
Sim, acredito muito que sim. Acho que é um papel que lhe está reservado e que pode ser muito importante para a real afirmação da nossa identidade. Aliás, uma das primeiras reuniões que tive quando assumi as funções de diretor executivo foi precisamente com os membros da Área Metropolitana de Lisboa (AML). Tal como existe, a AML não tem competências culturais, mas acredito que a Metropolitana, no quadro do seu trabalho, pode constituir-se como um importante instrumento para se testar um projeto coerente de identidade cultural e musical no âmbito da AML. Foi isso que propus nessa reunião.
E sentiu recetividade por parte dos autarcas da AML?
Sim, absolutamente. Apesar do contexto adverso da Covid-19, tenho sentido recetividade. E houve uma compreensão de que seria interessante pegar na experiência e no conhecimento do território da Metropolitana para tentar fazer algo mais profundo, que vá mais além do que aquela relação bilateral atualmente existente, que também é importantíssima, entre a Metropolitana e os seus promotores. Tentar algo mais profundo é algo que me tenta muitíssimo e que me fascina. E faz todo o sentido até como laboratório, de, mais tarde, a própria AML vir a desenvolver na sua própria missão competências culturais.
Até como forma de dar coesão a um território que é muito heterogéneo…
Exatamente. Nós temos um território cujos níveis de coesão social são muito diversificados. Há municípios, como sabe, muito ricos, há outros que passam grandes dificuldades, há municípios mais urbanos, outros mais rurais. Enfim, uma grande diversidade. Creio que um projeto cultural com a plasticidade e flexibilidade como tem a Metropolitana pode desempenhar um papel muito importante no sentido de cerzir uma área tão diversificada.
Sem descurar nunca a dimensão nacional da Orquestra, que tem vindo a tocar por todo o país.
Claro. Aliás, sendo certo que a Orquestra Metropolitana de Lisboa é muitas vezes conotada com a capital, nós queremos reforçar a dimensão nacional da nossa atuação. Isso é indiscutível, mas acredito que o futuro da Metropolitana passa muito por esse papel aglutinador que pode desempenhar na Área Metropolitana de Lisboa.
O financiamento da Metropolitana, que tem sido o seu calcanhar de Aquiles e a razão principal das suas dores de crescimento, pode passar também por esse papel mais ativo no território onde está inserida?
Sim, claramente. Entendemos, por um lado, que a Metropolitana pode desempenhar esse papel, mas, por outro, pode com isso atingir uma escala que lhe permita, por exemplo, candidatar-se a fundos europeus e de coesão. Bem sabemos que os fundos comunitários só funcionam a partir de determinada escala e isso decorre da confluência de várias políticas de território. Estamos hoje já longe do tempo de Manuel Maria Carrilho, em que havia um Plano Operacional para a Cultura. Isso hoje já não existe a nível europeu.
Sim, passaram 25 anos…
Exatamente. Hoje o que existe são, de facto, políticas integradas e a Cultura é encarada como mais uma dimensão da gestão de um território, a par da Mobilidade, da Saúde Pública, da Educação, etc. A Cultura continuar a ser, ainda hoje, olhada como algo supérfluo, não essencial e estruturante. Ora, esse é também o meu desejo: que na Área Metropolitana de Lisboa a Cultura possa ser percecionada de forma diferente e que a Metropolitana possa contribuir para esse lastro.
Voltemos ao tema do financiamento da Metropolitana…
[pausa] Eu já sabia, quando aqui cheguei, que financeiramente a organização estava com grandes dificuldades. Não obstante, é preciso dizer isto: os tempos que hoje estamos a viver são completamente diferentes de tempos que já se viveram nesta casa. Por exemplo, quando o António Mega Ferreira entrou aqui para a Metropolitana como diretor executivo, a situação era muito pior, muito mais grave. Entre várias conquistas dos mandatos do meu antecessor, uma delas foi a estabilização financeira da AMEC | Metropolitana, que ainda hoje luta com alguns problemas.
Qual é o mais grave?
O grande passivo é o maior desses problemas financeiros. É um passivo que vem de trás, de há muito tempo, e que não foipossível resolver. Não fosse esse passivo, a gestão corrente até está bastante equilibrada, e tem demonstrado isso nos vários exercícios. Com o passivo que nós temos, que é uma espécie de corda ao pescoço que temos há muitos anos, é difícil fazer melhor.
Então qual a solução para resolver esse passivo?
Vai ter de ser resolvido [pausa]. Nós temos tido, apesar de tudo, uma grande solidariedade por parte dos Fundadores da Metropolitana, que têm sido bastante sensíveis a esta questão. Devo nesse particular destacar a Câmara Municipal de Lisboa, que tem sido um parceiro fundamental da organização. Mas, de uma forma geral, os Fundadores têm mantido, todos eles, o seu compromisso. Aliás, no final de 2019, foi assinada uma nova adenda ao Acordo de Fundadores original, que atualizou o financiamento para os valores que tínhamos em 2010. Não é o melhor dos mundos, não é o ideal, mas percebe-se que já é qualquer coisa. Por outro lado, tenho tentado estabelecer contacto com algumas organizações do Estado, que nos permita resolver uma parte do passivo. Como sabe, uma grande parte do passivo tem a ver com dívidas fiscais e à Segurança Social.
Portanto, está a tentar renegociar a dívida?
Sim, é o que qualquer contribuinte, individual ou coletivo, faz. Temos uma dívida, temos de pagar, mas se pudermos renegociar prazos de pagamentos que nos permitam não estrangular financeiramente a organização, melhor. Vamos ver o que conseguimos.
No final de 2018, a Caixa Geral de Depósitos deixou de ser mecenas da Metropolitana. A procura de um substituto é fundamental?
É fundamental, sim. Eu lamento que a Caixa tenha deixado de ser mecenas, e sobretudo lamento a forma como foi. Eu não estava cá ainda, mas lamento que a CGD, sem qualquer tipo de aviso prévio, praticamente numa semana, se tenha retirado de uma relação que durava há 20 anos. Não era uma relação de dois ou seis meses, era de longo fôlego e que, de repente, termina com uma decisão unilateral, sem que houvesseo devido diálogo. Nós entenderíamos sempre a mudança de opção e a reestruturação interna da Caixa Geral de Depósitos, mas a forma como tudo isto correu é que me parece absolutamente incorreta. Merecíamos um outro tipo de tratamento.
Em 2022, a Metropolitana completa 30 anos de vida. Que caminho terá a organização de percorrer para que esse seja um ano de viragem efetiva?
Trinta anos é uma efeméride suficientemente interessante para que nós olhemos para 2022 com atenção. Primeiro que tudo, há razões para celebrar. O prestígio, a maturidade, o estatuto que alcançou, a notoriedade de que goza, as gerações de pessoas que formou. Até lá espero ter resolvido uma boa parte dos problemas financeiros, de forma a dar um maior fôlego a essas celebrações. Para lá da efeméride, é interessante apontarmos para 2022 várias coisas que podem ser lidas como o arranque de um novo ciclo.
Está a pensar no edifício-sede e numa sala própria?
Estou, sim. É algo que tem de ser olhado de frente. Estou a trabalhar com a Câmara Municipal de Lisboa para tentar, através da Agência E-Nova, que este edifício onde estamos seja encarado de uma outra forma para proceder à sua reabilitação. Este edifício tem características maravilhosas para ser um edifício sustentável, porque na sua própria estrutura arquitetónica tem esse tipo de possibilidades, e acho que pode fazer parte de um projeto que lhe permita ser uma referência a nível energético e de sustentabilidade. A reboque disso, poderemos fazer aquilo que é desejado há muitos anos, que é requalificação deste espaço, que não tem sido possível fazer. Essa requalificação deste edifício permitir-nos-á trabalhar em melhores condições. A nós, aos músicos e aos alunos.
Acredita que será desta que o espaço que é provisoriamente ocupado há mais de uma década pelo Hot Clube de Portugal – Escola de Jazz Luís Villas-Boas será libertado de novo para a Metropolitana? É algo que a AMEC tem tentado, sem sucesso.
Sim, é óbvio que o Hot é uma situação que tem de ser resolvida. A coabitação tem sido muito cordial e nós reconhecemos a qualidade do projeto Hot Clube, mas o que é certo é que em Portugal as coisas provisórias tornam-se definitivas. E aqui a questão torna-se cada vez mais difícil. Apesar de todas as vicissitudes que tem passado, a própria Metropolitana tem crescido muitíssimo e nós estamos cada vez mais a desenvolver projetos dentro de casa, nomeadamente a nível pedagógico, que nos são exigidos pelas autoridades reguladoras, no sentido de obtermos a certificação necessária para o nosso trabalho.
O que é que tem faltado para evitar que o provisório se torne definitivo?
Nós temos um diálogo permanente, há muitos anos, com a Câmara Municipal de Lisboa sobre essa matéria. Sabemos que a Câmara é muito pressionada por imensas entidades que não têm espaço. Também sabemos que a Câmara tem um grande património na cidade. O grande problema é que esse património está muito degradado e a sua requalificação implica um investimento que nem a Câmara quer ou pode fazer, nem a entidade que vai ocupar esses espaços tem condições para o concretizar.
Portanto, acha que é só isso?
[sorriso] Depois, há as questões orgânicas próprias de tudo o que é a Administração Pública portuguesa. Nós sabemos que tudo tem uma dinâmica, que é muito mais lenta do que a nossa velocidade aqui. O terceiro setor tem uma outra eficácia, não lutamos com a burocracia que uma câmara luta.
Mas são muitos anos…
São, de facto, muitos anos [sorriso].
A leitura fácil de fazer é que isto é um braço de ferro que nunca houve vontade política de resolver. É um pouco difícil acreditar que em oito ou dez anos não se tenha encontrado uma solução que satisfaça a Metropolitana e o Hot Clube de Portugal.
[pausa] Não posso falar por um tempo em que não estive cá. O que eu posso falar é que tenho visto na vereadora da Cultura [Catarina Vaz Pinto, também presidente da direção da Metropolitana] uma enorme sensibilidade e também vontade de resolver este assunto.
Tem na cabeça um horizonte temporal para ver esse problema resolvido?
Creio que faz sentido esperar que este assunto se resolva até ao final do mandado deste executivo municipal.
Portanto, cerca de um ano, porque haverá eleições autárquicas em outubro de 2021…
Sim, seria muito importante que assim fosse.
Está confiante nisso?
Eu estou… [pausa] confiante talvez possa ser ir longe de mais [gargalhada], mas estou esperançoso que assim aconteça. Não quero elevar muito o nível de expectativa, porque pode não acontecer, mas estou muito empenhado em resolver este assunto.
Há muito que se fala da necessidade que a Metropolitana tem de ter a sua própria sala, sem andar a saltitar entre o CCB e o Teatro Thalia ou outros espaços. Esse auditório poderia ser construído aqui, nos terrenos da sede?
Eu devo dizer que gosto muito deste edifício, que é um edifício classificado, e tem potencialidades para se construir o auditório aqui. Aliás, há um projeto arquitetónico de criação de um auditório aqui com a fachada para a Praça das Indústrias. É um projeto interessante que o António Mega Ferreira teve oportunidade de me mostrar antes de sair. A questão é sempre a mesma…
… financiamento.
Pois, inevitavelmente. O que é facto é que nós estamos aqui rodeados de uma infraestrutura, que é a Associação Empresarial de Lisboa, que tem vários auditórios. Até já fiz uma primeira iniciativa, no sentido de falar com a direção, para tentar perceber qual seria o nível real dessa possibilidade. Porque enquanto nós não temos um auditório, nem a possibilidade de o construir, talvez fosse uma solução interessante se nós pudéssemos residir, digamos assim, num auditório que, ainda por cima, está aqui ao lado.
Portanto, seria um auditório de residência…
Sim, um auditório onde a Orquestra possa tocar, mas, sobretudo, ensaiar. Porque é fundamental, no meu entendimento, que a OML continue a ter a mobilidade que tem tido até agora. Aliás, é uma das coisas que a caracteriza. Nós sabemos que há outras orquestras em Lisboa que têm muito mais dificuldade em se movimentar, são organizações mais pesadas, menos flexíveis. Creio que a Metropolitana ganha muitíssimo em manter este nível de mobilidade e de adaptação a vários contextos e de se dividir em grupos mais pequenos. Dito isto, é evidente que um auditório de residência tem de existir. Também será possível apresentar espetáculos nesse auditório, e até é interessante que o faça, mas essa mobilidade e essa capacidade de estar um dia em Lisboa, outro dia em Almada ou nas Caldas da Rainha, são uma marca distintiva que não pode ser perdida. Até para os próprios intérpretes é muito importante e desafiante.
A Orquestra Metropolitana de Lisboa apresentou na semana passada os primeiros meses da Temporada 2020-21, no contexto de incerteza em que nos movemos. O que é que a OML vai oferecer aos seus Amigos e ao restante público?
É uma programação, naturalmente, que decorre do contexto. Mas devo dizer-lhe que, apesar de tudo, encontrou a sua espinha dorsal e tem um fio condutor muito evidente. A coerência desta programação deve-se, naturalmente, ao trabalho do Maestro Pedro Amaral, que eu não queria deixar de sublinhar aqui. Foi um trabalho importantíssimo porque ele próprio também demonstrou uma capacidade de ultrapassar esta adversidade e, apesar de tudo, perceber as condicionantes e apresentar uma programação atraente, coerente e que recupera muito da estrutura habitual da Metropolitana. O único espaço habitual que não figura nesta programação é o Museu Nacional de Arte Antiga, é a Temporada Barroca. Tudo o resto está presente nestes primeiros quatro meses da Temporada, que agora foram apresentados.
Já é oficial – foi anunciado durante a apresentação da Temporada – que Pedro Amaral deixará as suas funções de Maestro Titular da Metropolitana e de Diretor Artístico. A direção entendeu que era chegado o tempo de um novo ciclo?
O trabalho do Maestro Pedro Amaral foi importantíssimo. Foi um trabalho de grande estabilização. O Pedro entra numa fase ainda muito tumultuosa da vida da Metropolitana. E em todas as organizações culturais é preciso apostar na maturidade dos projetos, dar tempo para essa estabilização. Em Portugal, diria, temos de continuar a trabalhar muito nessa área. E na Metropolitana houve tempo para amadurecer o projeto, para melhorar, para trabalhar sobre essa melhoria. Não somos nada partidários dessa ideia que depois de nós vem o dilúvio. Nunca se começa do zero, há sempre um trabalho que vem de trás.
Mas foram anos de crescimento artístico da Metropolitana. A crítica reconhece-o…
Absolutamente. Foram anos de crescimento, de maturidade, de estabilização do projeto, porque houve tempo, porque foi possível evoluir. A Metropolitana atravessou estes últimos oito anos com grande estabilidade artística, que é uma responsabilidade do diretor artístico, mas também de um diretor executivo com uma vertente artística, digamos assim, como é o António Mega Ferreira. Esta dupla foi responsável por anos fundamentais de estabilidade e de trabalho estruturante que levaram o projeto à excelência que ele tem hoje. Se a Orquestra desenvolveu as suas capacidades, e isso é reconhecido, isso deve-se ao trabalho dos músicos, claro, do seu talento e do seu empenhamento, mas também às condições que toda esta equipa conseguiu reunir para que o projeto, apesar de todas as vicissitudes financeiras, tivesse esta continuidade.
O que leva um pouco a pensar no que teria sido esse crescimento artístico se a Metropolitana não vivesse nesta permanente dificuldade financeira…
Sim, é uma boa reflexão, mas se calhar também não seria a organização tão coesa que é hoje. As dificuldades são sempre uma coisa interessante nas organizações. Estimula a criatividade, estimula a imaginação. Ter tudo resolvido a priori não é um bom ponto de partida, em meu entender. Tem de haver sempre desafios que se colocam, porque pode dar-se um amolecimento, quase apatia que não é benéfica. Não vale a pena dar exemplos de casos desses que existem por aí.
Essa “Inquietação”, que José Mário Branco cantava, é fundamental para a produção artística e cultural?
Fundamental, fundamental…
A direção executiva mudou em fevereiro, depois mudaram as direções pedagógicas. No final do ano mudará a direção artística. A renovação é virtuosa numa organização?
Muito virtuosa. Apesar da estabilidade de que falávamos há pouco, a sucessão de ciclos faz todo o sentido para estimular a criatividade.
Pedro Neves será o sucessor de Pedro Amaral. É um maestro jovem, respeitado e formado na casa. São critérios importantes que justificam a sua escolha?
De facto, esses foram aspetos subjacentes à escolha de Pedro Neves. Para além de ser um maestro de qualidade absolutamente reconhecida pelos seus pares, é também de uma outra geração e o primeiro Maestro Titular / Diretor Artístico que é antigo aluno e diplomado pela ANSO. Este contexto, e sobretudo este último aspeto, pareceu-nos de grande pertinência num cenário de mudança de ciclo no qual a celebração dos 30 anos de atividade da AMEC | Metropolitana é um dos horizontes temáticos de grande significado.

Muito bem, entramos na parte final desta entrevista e falemos de si. O que é que motiva e faz correr alguém que teve competências na EGEAC, no Teatro Nacional D. Maria II, no Centro Cultural de Belém, no Governo pelo meio, para lá do que está para trás no seu currículo?
[pausa] O que me motiva é colocar a mim próprio a interrogação “será que sou capaz?”
Tem essas dúvidas recorrentemente?
Tenho. Imensas. Sempre. Sou uma pessoa muito dubitativa. Nunca vou para um projeto com as favas contadas ou a pensar que vai ser com uma perna às costas.
Isso é uma prudência da sua parte ou é uma característica sua?
É um desafio que me coloco a mim próprio e, ao mesmo tempo, uma característica minha, no sentido em que considero que as pessoas que partem para as coisas com 100% de certezas, das duas uma: ou são geniais, o que não é o meu caso, ou então é alguém que tem muito pouco recuo em relação a si próprio. E eu tento ter esse recuo e a consciência das minhas limitações. Isso está na base daquilo que é essa dúvida metódica. Não estou a dizer que duvido de mim como duvidava há 30 anos, quando comecei. Mas há sempre essa dúvida: será que vou conseguir?
Há um medo de falhar?
Necessariamente. Há um medo de falhar e a consciência absoluta de que cada projeto é um projeto. E isso talvez seja a razão maior que faz continuar a trabalhar nesta área. Porque cada projeto tem a sua singularidade, tem pessoas diferentes, tem uma identidade e desafios diferentes. É isso que me fascina na Cultura. Há sempre algo novo.
Foi essa novidade, essa capacidade de olhar a Cultura de um outro prisma, que o fez aceitar o convite para integrar o Governo como Secretário de Estado da Cultura entre 2016 e 2018?
Sim, claro. Eu que tinha sido tão crítico em relação às políticas culturais e aquilo que se fazia em Portugal, achei que não podia recusar. Não era sério. Uma pessoa quando veste a camisola, veste a camisola. Sabia que ia ser muito complexo, ainda por cima porque eu não tinha qualquer experiência política. Isso foi algo que constituiu, em determinados momentos, um obstáculo.
Gostou dessa experiência, dessa necessidade de conviver com o lado político, os bastidores, a negociação…
[pausa] A política, apesar de tudo, é considerada uma arte nobre. Pelo menos desde Platão. Nós temos a tendência de achar que a política são jogos, é o bas-fond, é algo obscuro. Nessa minha experiência fui encontrar um lado bastante nobre da política, no sentido de que tive muitos colegas que tentaram sempre dar o seu melhor. Desse ponto de vista, da entreajuda, do trabalho coletivo, a experiência foi muito boa. Depois, há uma outra dimensão da política, que é o da negociação, do lóbi, da tentativa de equilíbrios de paradoxos, e isso, enfim, não gostei tanto.
Porquê?
Porque é um trabalho que eu percebo que possa ser apaixonante para alguns, mas para mim é menos interessante. A pessoa sente-se um pouco presa, espartilhada. Falta alguma liberdade. Eu, pelo menos, senti-me assim. E isso, confesso, não gostei tanto.
Mas foi uma experiência importante para si?
Importantíssima.
Como gestor cultural sente que esses dois anos e meio que passou no Governo o prepararam melhor?
Sim, sim. Ver o funcionamento por dentro do aparelho do Estado e de um Governo é muito interessante. É pena que nós não sejamos preparados na escola para exercer esses cargos. Eu, que venho de uma formação de História, e que nunca tive uma cadeira política, acho que me faltaram instrumentos para compreender algumas mecânicas. E se os tivesse, à partida, teria evitado alguns tropeções e algumas coisas erradas que fiz. Hoje, provavelmente, já faria de outra forma. Faltou formação.
Falta formação nessa área?
Sim, já o disse anteriormente. Se cada vez mais se valorizam os independentes nos governos, talvez fosse importante criar um coaching para essa gente que vem de fora. Porque uma coisa é estar dentro dos aparelhos partidários. Há pessoas que saem da faculdade e que vão logo para as Jotas ou para os partidos, ou gabinetes. Agora, as pessoas que não têm esse tipo de vivência – e que é, precisamente, o facto de não o terem que as qualifica como interessantes para a política – têm grandes dificuldades. E por isso é importante, creio, que essas pessoas tenham uma formação sobre essa área.
A chegada de independentes à política, e a perceção pública da sua importância, dá-se, sobretudo, a partir de 1995, com os Estados Gerais de António Guterres. E isso na altura acrescentou frescura à política. Gente com outros mundos, com outras visões, fazedores e não políticos. Essa ideia de uma formação política a priori não contrariaria um pouco esse princípio?
Não sei. Quando falo em coaching, não estou a pensar no milagre multiplicação dos pães, nem da criação de uma série de protótipos de políticos iguais aos que já existem. As pessoas têm as suas formações, os seus pensamentos críticos, a sua forma de olhar o mundo e isso é importante para acrescentar mundo real à política. Esta formação de que eu falo é mais no sentido processual, o modus operandi da estrutura do Estado.
Uma espécie de Manual de Sobrevivência?
[riso] Exatamente, uma espécie de Manual de Sobrevivência. Para mim teria sido uma mais-valia muito interessante.
Quando é que a Cultura despertou em si?
Venho de uma família metade monárquica, metade republicana. A parte republicana trouxe para a família muitos dos ideais da I República, sobretudo o ideal da Instrução e da Educação. O meu pai, apesar de ter tirado Direito, era muito mais ligado à escrita e à criatividade. Não é uma família de artistas, nunca foi, mas sempre teve um lado criativo que fazia parte do nosso quotidiano. O meu pai sempre odiou o curso de Direito [risos]. Aliás, nunca exerceu. Essa matriz republicana foi muito importante na minha vida e na minha educação. Fui levado a espetáculos e tive oportunidade de contactar com a oferta cultural e isso foi determinante na minha formação. Devo-o aos meus pais e à sua curiosidade intelectual.
Há algum momento particular dessa fase em que sente que a Cultura passa a fazer parte da sua vida?
Sim, há uma deslocação ao Teatro Nacional de São Carlos, onde vi uma sucessão de peças de contos infantis e essa experiência foi muito interessante para mim. O que me fascinou foi a máquina, o que estava por trás da ribalta, o que estava na sombra.
Mas recorda-se de ser uma criança que, “quando fosse grande”, queria ser algo ligado à cultura ou uma profissão mais tradicional?
[pausa] Não tenho memória de ter sido uma criança com essa ideia formada. Sei que queria ter uma atividade criativa. Eu e o meu irmão gémeo éramos crianças muito criativas. Desafiávamo-nos muito um ao outro.
No seu currículo teve profissões não criativas? Um emprego das nove às cinco…
[riso] Nunca tive, nunca tive. Tenho tido sorte no meu percurso. Acabei a faculdade e tinha 22 anos. Já tinha algumas ocupações culturais: fiz teatro na companhia de teatro da Universidade Técnica com Jorge Listopad.
Grande mestre…
É verdade, um grande mestre. Um homem fantástico. Portanto, tinha essa apetência já para as atividades culturais. Nunca tive espírito boémio na faculdade, nem tinha qualquer apetência para seguir a vida académica. Eu fiz o curso de História e gostei muito. Foi um curso que me deu imensas coisas interessantes.
Acaba por suceder aqui na Metropolitana a António Mega Ferreira, com quem, aliás, trabalhou na Expo’98.
Sim, o António convidou-me para entrar na Expo’98, muito antes da Exposição arrancar. Entrei em 1995, primeiro fui coordenador do Pavilhão da Utopia durante um ano. Depois, convidou-me para a equipa do Festival dos 100 Dias, que fazia parte da programação cultural da Expo. E aí fui dirigido pela Gabriela Cerqueira e guardo as melhores recordações desse tempo. Foram tempos irrepetíveis. Havia uma paixão e uma entrega que raramente vi num outro momento.