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A Vida Apenas, sem Mistificação

Como falar postumamente de alguém totalmente indiferente à posteridade?

Como falar da morte de alguém que renascia em cada livro, em cada descoberta, em cada projeto?

Como falar de um “Dantesco” Iluminado?

Conheci pessoalmente António Mega Ferreira em 1990. Tinha 24 anos e ele 40. Eu, um aspirante, ele definitivamente graduado, Diretor da Revista “Oceanos”, Comissão para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses. Era a propósito de um projeto de animação na zona Ribeirinha de Lisboa, como complemento de uma exposição sobre embarcações tradicionais portuguesas. Reunião de apresentação do projeto; tocou-me o papel de porta-voz…… fiquei mudo, sem reação perante aquele olhar extraordinário onde cabiam ao mesmo tempo todo o desassombro e mordacidade do mundo. Segundos pesados, expectantes…. “quer um copo de água?” …. Derrocada……!

Este falhanço inicial perseguiu-me durante anos. Cada vez que encontrava o António Mega, sobrevinha esse momento traumático, que me abatia o discurso, que me comprometia a autoestima, vergado perante a sagacidade, a fluência, a centelha, a paixão. Era impossível não nos rendermos perante a inteligência com que nos relatava, com o mesmo lampejo de puro entusiamo, a descoberta do Tempietto di San Pietro in Montorio ou a mais “rabelaisiana” das visões.

Estar, escutar o António Mega, era aprender sempre, decerto, mas mais do que isso: invadia-nos a convicção de que pensamento e vida eram inseparáveis, indizíveis no mistério da sua substância única.

Muitos foram, portanto, as prodigiosas oportunidades que me proporcionou ao longo de trinta anos: uma utopia em forma de pavilhão, um festival com 100 anos que decorria em 100 dias, uma gala para Amália com um difícil “happy end”, um “Corvo Branco” que transbordava teatro, uma “Mazurca Fogo” retrato de uma cidade que, ainda hoje, não assumimos totalmente.

Se fosse apenas essa a dívida, chamada EXPO’98, de que me ficou eternamente credor, já seria por si só infinita, mas a sua opinião, influência, perspetiva, subjazem a muitos momentos do meu percurso.  Sobre eles nunca nos alongámos; permanecem, por isso, como cumplicidades de uma amizade conquistada.

Por último, a Metropolitana, que aceitei com o orgulho e a modéstia de quem sabia de sobejo o que se jogava nessa sucessão. A marca que António Mega deixou neste projeto é indelével, pela qualidade artística que, com Pedro Amaral, conseguiu alcançar, consolidando e elevando-o ao estatuto de referência nacional.

No dia 15 de dezembro de 2021 almocei pela última vez com António Mega Ferreira, no “Coelho da Rocha”, um dos seus pantagruélicos lugares de eleição. Lembro-me que falámos do último livro que terminaria meses depois “Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas”; apesar da dor o mesmo olhar, perscrutador, zombeteiro, audaz. Belo desígnio esse, de voltar por fim às palavras, à sua dimensão de pequenos elos que nos constroem e reconstroem, ávidas de sentido, sôfregas de tempo.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação [1]

[1] In Carlos Drumond de Andrade, Teus ombros suportam o mundo

Texto de Miguel Honrado
Diretor executivo da Metropolitana

Fotografia: @joaofranciscovilhena


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