Na véspera da interpretação das Fábulas de La Fontaine por parte da Orquestra Juvenil Metropolitana, conversámos com o seu diretor artístico. Élio Leal, licenciado pela Academia Nacional Superior de Orquestra, confessa o orgulho de trabalhar na casa que o formou e explica o que é preciso para adolescentes e jovens triunfarem numa arte tão intensa como a música.

As Fábulas de La Fontaine marcam a estreia da Orquestra Juvenil Metropolitana neste novo programa Histórias da Formiga Rabiga. Como foi preparada esta atuação?
Para a OJM é um privilégio poder participar nas Histórias da Formiga Rabiga, a começar pelas Fábulas de La Fontaine. Mas como grandes privilégios trazem grandes responsabilidades, a atuação foi preparada com todo o pormenor que esta novidade na programação da Metropolitana nos merece. A principal particularidade desta obra são os detalhes de instrumentação e de orquestração que caracterizam e distinguem cada um dos seus 11 andamentos. Isso torna a obra bastante exigente ao nível interpretativo. Outro aspeto decisivo na preparação desta atuação é o facto de todos os andamentos contarem com a presença de um quarteto de sopros solista, composto por professores do Conservatório de Música da Metropolitana, o que representa sempre um desafio para qualquer orquestra e para qualquer maestro.
As Fábulas de La Fontaine são um texto universal do século XVII, traduzido, interpretado, cantado por milhares de artistas em todo o mundo. Como se motiva jovens músicos para textos com três séculos e meio de história?
Estamos perante histórias intemporais que atravessaram gerações e que continuam muitíssimo atuais, sobretudo pela mensagem intrínseca que cada uma delas pretende passar. A maioria dos jovens, incluindo os que compõe a OJM, conhece estas fábulas desde criança, até porque fazem parte do Plano Nacional de Leitura. Se somarmos a isso a oportunidade de interpretarem música original baseada nessas mesmas fábulas, eu diria que a motivação é quase automática. E neste caso particular com o fator extra de se tratar de uma obra que foi escrita propositadamente para a OJM por encomenda da Metropolitana.
O que vai o público encontrar este domingo às 11h00 no Teatro Thalia?
O público vai encontrar jovens músicos que, através dos diferentes timbres da orquestra, vão interpretar um lobo autoritário em contraste com um inofensivo cordeiro, uma doninha gorda e farta que não consegue controlar a gula, até uma lebre rápida que perde um desafio para uma lenta tartaruga. As palavras narradas antes de cada andamento que compõe esta obra vão ajudar as crianças e os jovens a ouvir e a compreender melhor a música que irão escutar.

É diretor artístico e Maestro da Orquestra Juvenil Metropolitana desde 2015. Como tem sido a evolução da Orquestra?
A evolução da OJM está sempre muito dependente do universo de alunos que frequentam o Conservatório de Música da Metropolitana a cada ano letivo. Isto é algo comum à maioria das orquestras académicas e representa um dos principais desafios no trabalho que é desenvolvido com as mesmas. No que diz respeito à OJM, a evolução tem sido em sentido crescente, mesmo antes da minha direção artística. A cada novo ano letivo o objetivo tem sido elevar a qualidade alcançada no ano anterior e penso que isso tem sido conseguido. Contudo, é preciso salientar que esta evolução é em muito facilitada pela atenção que é dada a esta orquestra por parte da Direção Pedagógica do Conservatório e pelos objetivos que nos são colocados pela Direção Artística da Metropolitana. Esses objetivos traduzem-se num voto de confiança que tem levado a OJM a conquistar um espaço cada vez mais distinto dentro do panorama artístico e pedagógico desta instituição.
Começou os seus estudos musicais aos 11 anos. São idades de formação de personalidade, de muitas solicitações e transformações. O que se exige a um jovem nessa idade? É preciso uma grande força de vontade, uma grande exigência…
Estamos a falar de uma idade em que existe uma maior consciência daquilo que se quer, mas também uma idade muito sujeita às diferentes solicitações do meio envolvente. Como tal, exige-se acima de tudo um sentido de compromisso, dedicação e gosto pelo instrumento que se escolheu. A junção destes fatores vai ser determinante para todo um processo de escolhas e tomadas de decisão que vão definir o futuro de um jovem, quer seja a nível profissional, quer seja ao nível das suas competências sociais e humanas.
É licenciado pela ANSO, ou seja, é um produto feito na casa e um exemplo da diversidade e excelência do ensino da Metropolitana. Como tem sido esta caminhada?
Tem sido uma caminhada muito exigente e igualmente enriquecedora. É um privilégio ter a oportunidade de trabalhar na mesma casa que me formou na área da Direção de Orquestra. Porém, sinto uma responsabilidade acrescida em desenvolver diariamente um trabalho sério e competente que dignifique não só a instituição que me formou como as pessoas que nela trabalham e que foram tão decisivas no meu percurso académico e profissional.
Como tem visto a evolução da Metropolitana ao longo destes anos?
O futuro de qualquer instituição depende da forma como os valores que caracterizam a sua identidade resistem ao longo dos anos. No caso da Metropolitana penso que esses valores estão cada vez mais sólidos. Essa solidez traduz-se em resultados que têm contribuído de forma muito significativa para que o nome Metropolitana seja hoje sinónimo de excelência e rigor, quer ao nível artístico, quer ao nível pedagógico. Desde que entrei na Metropolitana, em 2009, sinto que estamos perante uma instituição que a cada ano que passa dá maiores provas de merecer o respeito e o reconhecimento que tem vindo a alcançar no panorama cultural e educacional, tanto em Portugal como no estrangeiro.