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“A Metropolitana tem feito um trabalho de excelência”

Entrevista ao pianista António Rosado, Artista Associado da Metropolitana na Temporada 2019/20.

Estudou no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, partindo aos 16 anos para Paris onde foi discípulo de Aldo Ciccolini no Conservatório Superior de Música e nos Cursos de Aperfeiçoamento em Siena e Biella. Apresentou-se inúmeras vezes com orquestras nacionais e internacionais e a sua discografia contempla obras marcantes do repertório para piano solo e de música de câmara. Foi laureado pela Academia Internacional Maurice Ravel, pela Academia Internacional Perosi, pelo Concurso Internacional Vianna da Motta e pelo Concurso Internacional Alfredo Casella de Nápoles. Em 2007 foi distinguido pelo Governo Francês com o grau de Chevalier des Arts et des Lettres.
Este fim-de-semana tem três concertos ao lado da Orquestra Académica Metropolitana, em Lisboa, Portimão e Setúbal.

Já colabora com a Metropolitana há muitos anos. Aliás, tem sido uma testemunha real do crescimento da instituição artística e pedagógica com quase 28 anos de vida. Mas desta vez é diferente, pois é Artista Associado da Temporada 19/20.
Como foi receber este convite?

Recebi com muito agrado, com muita honra. É um desafio, apesar de uma grande responsabilidade, muito apaixonante, e que eu abracei com grande entusiasmo.

Que opinião tem sobre o trabalho que tem sido feito nesta casa?

A minha relação com a Metropolitana é longa e essencialmente nos concertos com as orquestras e, eventualmente, em música de câmara. Mas é uma relação muito longa, creio que desde 1992 do século passado. Isso permitiu-me apresentar diversos programas, de Mozart a Strauss, de Prokofiev a Falla, de Bomtempo a Gershwin, de Sérgio Azevedo a Beethoven e por aí fora. Por isso, tive o privilégio de testemunhar o crescimento da Metropolitana e conhecer novos músicos e excelentes instrumentistas. É uma instituição que tem desenvolvido um trabalho de excelência.

Com esta dupla dimensão de, por um lado, a atividade criativa e, por outro, a atividade pedagógica. Aliás, a sua participação este ano como Artista Associado toca nesses dois vetores. Além de tocar com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, vai atuar também com a Orquestra Académica Metropolitana e com pequenos ensembles de Música de Câmara.

Pois, isso é para mim muito interessante e foi uma das razões que tornou o desafio que me foi lançado ainda mais estimulante. Em relação à Música de Câmara, vou tocar com excelentes músicos, que já conheço há muito tempo. Depois, é também muito entusiasmante tocar com jovens, porque tenho sempre extraído muita movimentação desses contactos. É uma experiência muito empolgante.

“Para lá do profissionalismo que é expectável,
é bom que os músicos também

se divirtam a fazer o que fazem”

Então começamos mesmo por aí. O António vai tocar com a Orquestra Académica Metropolitana em Lisboa, Portimão e Setúbal. O que espera destes concertos já nesta sexta-feira, sábado e domingo?

Espero que, desde logo, seja um divertimento. Para lá do profissionalismo que é expectável, é bom que os músicos também se divirtam a fazer o que fazem. Ainda por cima, neste caso, porque é um repertório tão especial. Muitos dos jovens que o vão tocar não o conheciam, seguramente. Mas tenho a certeza de que vão gostar porque tem várias facetas e uma delas é, precisamente, a faceta rítmica e divertida de Saint Säens.

Alguém disse um dia que o Segundo Concerto para Piano de Saint-Säens «começa como Bach e termina como Offenbach». Há uma crítica implícita nesta piada, não há?

[risos] Bem, não sei se é uma crítica mesmo, ou é apenas uma constatação, porque na verdade é muito inusual em todo o repertório fazer-se um concerto com um andamento tão diferente dos outros dois, muito rápidos. Provavelmente, o compositor terá tido uma vontade de chocar de alguma forma, passando de um ambiente quase religioso de uma escrita que se assemelha a Bach, para dois andamentos sucessivos muito leves e dançantes.

Essa diversidade também é um estímulo para quem toca…

Sim, sim, claro. Quando eu falava no choque destes dois mundos é porque na realidade acaba por não existir um andamento lento. Há uma sequência com uma grande cadência pianística no início com dois andamentos muito rápidos, que são o segundo e o terceiro.

Enquanto músico intérprete, qual é o lugar que reserva para Camille Saint-Säens, na presente fase da sua carreira?

É um compositor que eu visitei e revisitei de várias formas. Escreveu belíssima música, como sabemos, mas no que me diz respeito parece-me importante realçar que ele foi um extraordinário pianista. O seu pianismo vê-se na sua escrita, que é uma escrita mágica para o instrumento. Aliás, ele próprio também foi organista. Da obra dele para piano tem uma página que, para mim, é belíssima. Estou a referir-me ao Concerto N.º 5, conhecido por Egípcio, que já tive oportunidade de há alguns anos de apresentar com a Metropolitana.

Seguimos cronologicamente na temporada. A 28 de fevereiro e 1 de março, vai integrar em Lisboa e nas Caldas da Rainha, o programa Imperialismo e Holocausto, tocado pelos Solistas da Metropolitana. Um concerto de música de câmara com um pequeno ensemble levanta outros desafios a um pianista?

Sim, claro que sim. É muito diferente, exige posturas diferentes. Tocar a solo, em orquestra ou em música de câmara tem especificidades próprias. Se me perguntar qual delas prefiro, não seria capaz de lhe responder, porque todas elas são apaixonantes.

E também depende do programa, claro…

Sim, claro. E nesse aspeto tenho muita sorte porque o programa escolhido é muito interessante e muito diferente. É um trabalho árduo, mas que seguramente vai compensar.

Que desafios se colocam ao pianista na relação com os solistas?

Tudo depende da obra e do relacionamento que existe entre os músicos. Neste caso dos Solistas da Metropolitana, não estando a falar de músicos com quem tenha feito Música de Câmara toda a vida, são profissionais que conheço bastante bem. Estou certo que as coisas vão decorrer com muito naturalidade.

Com a Orquestra Metropolitana de Lisboa e a Orquestra y Coro da RTVE

Muito bem. Chegamos, enfim, a Beethoven, que ocupa a segunda metade da sua participação na Temporada da Metropolitana como Artista Associado. Nos dias 17 e 18 de abril, é a vez do Concerto N.º 2 . O António Rosado é um virtuoso do piano. Vai agora interpretar uma obra escrita por um dos pianistas mais virtuosos da segunda metade do século XIX. Já tocou este Concerto para Piano anteriormente?

Curiosamente, escolhi este concerto para antecipar a Integral, que vou tocar mais tarde, no final de maio, porque é precisamente o único concerto de Beethoven que eu trabalhei, mas não apresentei em público. E parecendo que não, há sempre uma pequena diferença quando é uma primeira vez, uma segunda, uma décima ou uma centésima vez. Por isso, eu achei que era interessante chegar à apresentação da Integral, que vai ser uma prova de força, com todos os concertos tocados.

Qual é a principal dificuldade técnica que esta partitura coloca?

Tecnicamente não será o concerto mais exigente, mas eu diria que é a clareza do discurso, porque ainda estamos a falar de um Beethoven bastante clássico. A maior dificuldade passa por aí, pelo aspeto estilístico.

Em 2012 tocou a integral das (trinta e duas) sonatas para piano de Ludwig van Beethoven. Junta-se agora à Orquestra Metropolitana de Lisboa para enfrentar a integral dos cinco concertos numa só semana. O que representam para si estes desafios?

[pausa] O que representa para mim? Representa muito trabalho [risos], mas também muito retorno do ponto de vista do conhecimento da obra do compositor. São experiências sempre muito enriquecedores e, sobretudo, quando falamos da obra de Beethoven. É um desafio que nos dá a conhecer a evolução da escrita e do discurso de Beethoven. E estava a pensar por exemplo na Integral das sonatas que fiz, como disse, no passado.

“Não há um só Beethoven. Nem podia haver:
ele começou no Classicismo
e deixa-nos já no Romantismo”

E há um só Beethoven ou há uma grande diferença entre o Beethoven das sonatas do Beethoven dos concertos?

Bom, na verdade, há um Beethoven que sempre foi à procura de novidade e de ir sempre mais longe. E nesse aspeto, vai acontecendo sempre um Beethoven sempre diferente, mais profundo, mais além. Mas naturalmente não há um só Beethoven. Nem podia haver: ele começou no Classicismo e deixa-nos já no Romantismo, abrindo portas para grandes compositores que, por sua vez, evoluíram depois. Se formos buscar os extremos da carreira de Beethoven, percebemos que há uma evolução, mas não ali qualquer unidade. Como conhecedor das sonatas e de outras obras, como as sinfonias, de que gosto muito, tenho uma curiosidade em que penso muitas vezes: como teriam sido os últimos concertos para piano e orquestra se ele tem continuado a escrever numa época mais adiantada. Isto porque ele dedicou-se no final da sua vida às sinfonias e aos quartetos de cordas. Isso fica no imaginário de cada um de nós. É mais uma das magias de Beethoven.

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