Com mais de cinquenta anos de carreira, o compositor alemão Enjott Schneider tem um catálogo extensíssimo: muita música para filmes, documentários e séries televisivas; obras vocais sacras e profanas em diversos formatos, inclusive óperas; sete sinfonias; centenas de peças de música de câmara e concertantes… O ecletismo – técnico e estilístico – será certamente a característica mais distintiva desse seu percurso, que inclui também as atividades de musicólogo e pedagogo. Em 2003 compôs Vivaldissimo, um concerto que coloca duas trompetes à frente das cordas da orquestra e de um cravo. Sem ambiguidades, toma como ponto de partida o célebre Concerto para Duas Trompetes de Antonio Vivaldi. Mas não se fica por aí.
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É inevitável a comparação entre os dois concertos. Desde logo, Schneider mantém a instrumentação e respeita a sequência de três andamentos instituída por Vivaldi – rápido-lento-rápido. Para lá disso, há características próprias do concerto barroco que são preservadas, tais como as melodias curtas, padrões ritmos dançáveis que se repetem insistentemente e a postura confrontacional entre solistas e orquestra. Neste caso, destaca-se ainda o virtuosismo exigido aos solistas, que parecem dialogar entre si de princípio ao fim. Porém, logo no primeiro andamento se percebe que a proposta de Schneider não se reduz a um mero pastiche. Ao encontro do superlativo absoluto do título, a forma ritornelo e o tema principal ostentam semelhanças. Mas a escrita é mais densa. Surgem sobreposições harmónicas inusitadas. As ideias estendem-se no tempo e as variações melódicas começam a irradiar em sentidos múltiplos. O segundo andamento vai ainda mais longe. Com efeito, a única característica que mantém é a pulsação lenta e a repetição obstinada de algumas notas. De resto, os solistas são chamados a intervir. Discorrem fraseios lamentosos que obedecem às coordenadas de uma sequência serialista pré-definida. Por fim, o Presto desvincula-se definitivamente de Vivaldi. Ao ritmo da valsa, mergulha no universo cinematográfico tão caro ao compositor. A este respeito, a própria edição da partitura faz alusão aos filmes de Fellini e à música de Nino Rota.
Rui Campos Leitão
Imagem: Enjott Schneider em 2023 / Fonte: Wikimedia Commons