Entre muitas outras, na transcrição para acordeão da parte de piano do Concerto N.º 3 de Rachmaninov assinada por João Barradas ressaltam duas motivações. Em primeiro lugar, é oportunidade para acrescentar repertório a um instrumento que foi inventado há apenas dois séculos e que, por essa razão, não dispõe de muito repertório afim à tradição musical clássica. Em segundo, é ensejo para explorar aspetos que estão latentes na partitura original mas que se revelam somente com nova «roupagem».
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A transcrição musical é um exercício fascinante. Na prática, consiste em pegar numa obra musical pré-existente e recriá-la numa versão diferente. É como contar a mesma história com palavras diferentes. Porém, cada caso é um caso. No passado era muito frequente «reduzir» partituras orquestrais para agrupamentos instrumentais pequenos, de maneira a tornar possível ouvi-las quando não havia uma orquestra à disposição. Já com o surgimento da gravação, tornaram-se comuns as versões «cover» de canções, por vezes como gesto de tributo. O resultado pode ser mais ou menos fiel ao «texto original», mas é sempre algo que não existia antes.
Em particular, transduzir música do piano para o acordeão obriga à adaptação de recursos técnicos e expressivos. Muito embora sejam ambos instrumentos polifónicos, registam notórias diferenças entre si. Na vez das cordas percutidas, achamos no acordeão o som produzido por palhetas que vibram à passagem do ar. As mãos direita e esquerda cumprem funções vagamente semelhantes. Mas há, naturalmente, a necessidade de ajustar alguns aspetos, tais como a distribuição das notas em acordes complexos, sem sacrifício da harmonia. Também as dinâmicas e as articulações; uma vez que dependem do controlo do fole, os fraseios são cuidados em toda a duração das notas. Assim, a originalidade idiomática não pode ser um dogma. Há que enfrentar as limitações e, sobretudo, explorar as nuances alternativas que o acordeão oferece, e o piano não alcança. Verdadeiramente inevitável, é o virtuosismo do intérprete.
Rui Campos Leitão