Poucas semanas após a subida do Terceiro Reich ao poder, no início de 1933, Kurt Weill viu-se forçado ao exílio na cidade de Paris. Levou então consigo os primeiros esboços de uma composição que terminaria alguns meses mais tarde. Sem dimensão cénica ou recurso vocal, a Segunda Sinfonia revela a faceta mais clássica do autor d’A Ópera dos Três Vinténs, a qual fora levada à cena por Bertolt Brecht cinco anos antes.
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Em grande medida, as composições exclusivamente instrumentais de Kurt Weill reportam-nos ao início da sua carreira, em particular ao seu período de formação. Foi nos anos que se seguiram à Primeira Grande Guerra que compôs a Sinfonia N.º 1 – a qual, por sinal, só estreou postumamente, em 1956. Mais tardia, a Sinfonia N.º 2 teve origem num dos momentos mais delicados da sua vida, quando em 1933 a ameaça do Regime Nazi escalou. Após vários anos de dedicação ao teatro musical, partiu para a capital francesa, que era então o primeiro refúgio dos judeus alemães. Nessa ocasião, já levava consigo alguns esboços de uma Sinfonia com três andamentos – o 2.º e 3.º foram integralmente compostos nos meses que se seguiram.
Ao contrário da primeira, esta segunda sinfonia ainda subiu ao palco por diversas vezes na década de 1930. Mas só na década de 1980 conquistou um lugar entre o repertório mais corrente das salas de concerto. Foi pela primeira vez tocada em 1934, na casa da Princesa de Polignac, uma personalidade de relevo no panorama artístico parisiense na primeira metade do século passado. A estreia pública aconteceu no mês de outubro seguinte, no Concertgebouw de Amesterdão sob direção de Bruno Walter. Foi este maestro quem apelidou esta obra de Fantasia Sinfónica: Três Cenas Noturnas, porventura sugestionado pelas sonoridades misteriosas que a atravessam.
Apesar da solidez estrutural da partitura, alguma crítica considerou que se tratava de uma mera colagem de canções por parte de um compositor que havia construído a sua reputação no contexto do teatro musical alemão. Com efeito, assiste-se a uma profusão de estilos que se estende da sobriedade clássica setecentista à exaltação romântica, passando pela espontaneidade da música popular. Ainda assim, é uma obra exclusivamente instrumental que segue os padrões clássicos, incluindo a Forma Sonata no primeiro andamento, uma cadência pesarosa no andamento lento e um Rondó conclusivo. No conjunto, a atmosfera enigmática que dá início ao primeiro andamento introduz as ideias fundamentais. Assiste-se depois ao desenvolvimento daqueles motivos, como exemplar demonstração de domínio técnico e maturidade criativa.
Rui Campos Leitão
Imagem: Kurt Weill em 1932 / Fonte: Bundesarchiv, Bild 146-2005-0119 / CC-BY-SA 3.0