Algo misteriosamente, o manuscrito do andamento central do terceiro Concerto Brandeburguês de Bach inscreve somente um compasso. «Insatisfeito», António Pinho Vargas aventurou-se na tarefa impossível de preencher a suposta lacuna. Nasceu assim a criação que a OML estreou em 2009 nos Dias da Música em Belém, uma edição dedicada à «Herança de Bach».
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Os primeiro e último andamentos do Concerto Brandeburguês N.º 3 de J. S. Bach correspondem por inteiro ao formato de um concerto do período barroco. Porém, o andamento central esconde um enigma, pois no manuscrito autógrafo leem-se somente dois acordes. Alguns especialistas defendem que se trataria de indicações sumárias para um violinista ou um cravista improvisarem uma cadenza. Ainda assim, prevalece um sentimento de vazio que nos recorda que a música é essencialmente uma arte performativa, por natureza efémera. Confrontados com o silêncio, somos levados a pensar em tanta música que se fez e que só se fixou na memória daqueles que estavam presentes… naquele dia e naquele lugar. Como alternativa à angústia provocada por uma condição irremediável, só existirá uma solução: pôr mãos à obra e continuar a compor, a tocar e a ouvir música, dia após dia, até ao final dos tempos. Foi isso o que fez António Pinho Vargas, quando respondeu ao desafio do CCB para «completar» aquilo que estaria pretensamente em falta. Porém, recusou qualquer tipo de idealização de um passado. Em vez disso assumiu tal «missão impossível» de maneira paradoxal. Exaltou o fascínio pela música de Bach, mas afastou a ideia de um pretenso restauro. Na vez de a completar, acrescentou-lhe um interlúdio estilisticamente contrastante. Abriu janelas sobre o passado, mas também questionou o presente ao propor uma experiência desintegrada. Não resultou, portanto, um trabalho de reconstituição, antes uma evocação do sentimento de perda, porque o vazio não se disfarça. Dispôs motivos esparsos emprestados do primeiro andamento do concerto de Bach sobre uma textura harmónica densa, com tremolos obstinados nas cordas. O ouvinte é chamado a contemplar aquilo que nos chegou, mas sobretudo a refletir sobre tudo aquilo que nunca chegará a ouvir.
Rui Campos Leitão