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Tutti!

Miguel Azguime é um compositor que gosta de falar do seu ofício e partilhar aspetos relacionados com a criação artística. Atrevemo-nos, por isso, a pedir-lhe que nos falasse sobre o Concerto para Orquestra antes mesmo da estreia. Bem sabemos que as descrições e a verbalização das ideias ficam sempre aquém da música propriamente dita. Mas também dão pistas que despertam uma escuta mais atenta e propícia à transformação pessoal.

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Miguel Azguime vinha sentindo há vários anos a vontade de se aventurar num tipo de escrita para orquestra que explorasse o Tutti – é esta a palavra italiana que se aplica para designar quando vários instrumentos tocam juntos. Com efeito, nas quatro peças para orquestra que compôs anteriormente, os instrumentos dispersam-se pela partitura. Nunca investira neste recurso técnico que, afinal, prevalece na esmagadora maioria do repertório orquestral. Nasceu então a ideia de compor um Concerto para Orquestra, assim proporcionada pela encomenda da Orquestra Metropolitana de Lisboa.

De imediato, lembramo-nos dos Concertos para Orquestra de Béla Bartók e de Witold Lutosławski (1943 e 1954), onde é confiado protagonismo aos diferentes naipes da orquestra em sucessivos andamentos. O mesmo acontece nesta obra de Azguime, com breves interlúdios transitórios pelo meio. Tudo começa pelos sopros, em particular as madeiras e a trompete. Cumpre às cordas e aos metais graves uma aparente função de acompanhamento. Depois, o dispositivo inverte-se. É dado relevo às cordas enquanto os sopros surgem em segundo plano. Na terceira secção sobressaem as percussões, dando ênfase à pulsação e ao ritmo. Por fim, tudo se combina e mistura num capítulo derradeiro.

Perguntámos então como é que características tão marcantes do seu percurso criativo como as texturas harmónicas repletas de microtons e a depuração tímbrica coexistem com a propensão melódica natural do Tutti. Acontece que os contornos melódicos se instalam no encadeamento dos acordes. A microtonalidade está presente e os instrumentos não tocam sempre a mesma nota, mas juntam-se em entidades sonoras que progridem melodicamente.

Quisemos também saber como é que as componentes performativa e os recursos eletrónicos, outros dois traços que distinguem a sua música, convivem com a escrita orquestral. Ora, são constelações diferentes. Já é bastante o desafio de explorar a imensidão de recursos que uma orquestra oferece e – adiantou – nunca tinha ido tão longe no que a isso respeita. Apesar da restrição que impôs aos materiais utilizados, foi tal a proliferação de ideias que deixa antever sequelas deste mesmo Concerto em ocasiões futuras.

Miguel Azguime é um cidadão preocupado com «as desorientações do mundo», as quais parecem ressoar na primeira secção deste Concerto. Alerta insistentemente para a necessidade de um novo paradigma civilizacional e não esconde o seu pessimismo, muito embora a última secção desta obra pareça contrariá-lo. As óperas explicitam com desassombro mensagens com este teor. Porém, as obras estritamente instrumentais não lhe permitem sequer vaguear sobre narrativas ocultas. Será assim? Nós, ouvintes, podemos exercitar conjeturas. Quem sabe, o próprio compositor venha um dia a desvelar algo mais ao acrescentar um subtítulo na partitura?

 

Rui Campos Leitão

 

[Foto: Miguel Azguime – @ Perseu Mandillo]