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Tangazo de Piazzolla

Astor Piazzolla compôs Tangazo em 1969. Trata-se de uma obra orquestral que reflete um estilo inconfundível, mistura característica de Tango, Jazz e Música Clássica. Sobretudo, coloca em evidência a faceta mais sinfónica do músico argentino. Lembra-nos que, por detrás do virtuoso do bandoneón, achava-se um profundo conhecedor da música de tradição clássica europeia. Em 1942 chegou a ensaiar um concerto para piano. Mas entre 1964 e 1970 foi mais bem sucedido na incorporação de harmonias, contrapontos e combinações instrumentais sofisticadas. Foi também nesse período que compôs as Quatro Estações Portenhas.

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Descendente de imigrantes italianos, Astor Piazzolla era um homem com ampla cultura musical. Entre os 4 e os 16 anos viveu em Nova Iorque, onde conheceu a música de Bach e Rachmanivov. Depois estudou direção de orquestra e composição. Em 1954, frequentou em Paris as aulas de Nadia Boulanger, uma das pedagogas musicais mais importantes do século XX. Tornaram-se então familiares técnicas de escrita mais complexas no que respeita à harmonia, à estrutura formal e à orquestração. Aprendeu também uma lição crucial sobre a autenticidade artística e a importância de nunca sacrificar a identidade musical que lhe era própria. Mantendo as raízes no tango argentino, juntou então um estilo neoclássico com influência de compositores europeus, tais como Stravinsky e Bartók. Compôs tangos para orquestras de cordas. Assim nasceu o «Novo Tango».

Fruto desse trajeto, e apesar de não ter sido um exímio orquestrador – no sentido tradicional do termo – Piazzolla também sabia orquestrar. Era inovador na escrita para pequenos ensembles, revelando uma sensibilidade notável para as combinações instrumentais. No seu famoso Quinteto Nuevo Tango, juntou o bandoneón, o violino, o piano, o contrabaixo e a guitarra elétrica. Anteriormente, tinha tido experiência semelhante no Octeto Buenos Aires, com dois violinos, um violoncelo, um contrabaixo, um piano, dois bandoneóns e uma guitarra elétrica. Deste modo, demonstrou ser capaz de explorar texturas tímbricas e dinâmicas que iam muito além da melodia acompanhada.

Tangazo desafia as fronteiras estilísticas, propondo-se trazer o Tango para o seio do repertório de tradição clássica. Demonstra também as competências de Piazzolla enquanto orquestrador, por intermédio de uma intrincada interação entre instrumentos que resulta em novas soluções expressivas. Estreada em fevereiro de 1970 pelo Ensemble Musical de Buenos Aires, sob direção de Pedro Ignacio Calderón, sequencia sonoridades muito contrastantes e (aparentemente) citações dispersas – nalguns momentos vislumbram-se fragmentos da célebre melodia do Adagio de Albinoni. Tudo começa «do nada», e termina em crepúsculo. Primeiro, os violoncelos e os contrabaixos introduzem uma longa melodia progressivamente secundada pelas cordas, como se de uma fuga se tratasse. É curioso aqui notar a utilização de um recurso contrapontístico que nos remete para a música barroca. Irrompe depois um secção frenética em que sobressaem os sopros madeiras em diálogo com as percussões e, mais adiante, toda a orquestra. Na parte central destaca-se uma melodia «entoada» pela trompa, depois pela flauta e, por fim, pela orquestra em registo cinematográfico. Após a repetição do Allegro, tudo se esvai num clima de serenidade.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Astor Piazzolla em 1971 | Fonte – Wikimedia Commons