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Syrinx

Syrinx traduz-se como «Siringe», nome da ninfa que se transformou num canavial para fugir ao desejo de Pã. Meio homem, meio bode, Pã transformou as canas que abraçou numa flauta cujo som lhe permitia encantar todas as criaturas da floresta. Em 1913, Debussy compôs a música para uma representação teatral baseada neste quadro da mitologia grega. A dada altura ouvir-se-ia esta curta peça para flauta solo. Syrinx tornou-se assim também no título de uma das peças mais célebres de todo o repertório da flauta transversal.

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Syrinx será provavelmente a obra para flauta solo mais importante alguma vez escrita. Depois dela muitos compositores compuseram obras com configuração semelhante. Antes disso, seria necessário recuar até ao século XVIII para encontrar uma outra com dimensão histórica comparável, designadamente a Sonata em Lá Maior de Carl Philip Emanuel Bach, datada de 1747. Debussy era então um compositor muito experiente, com 51 anos de idade. Portanto, encontrava-se na última fase da sua carreira quando foi convidado pelo seu amigo e dramaturgo Gabriel Mourey para escrever a música para uma peça teatral intitulada Psyché que, afinal, nunca chegaria a subir à cena. No início do terceiro ato era recitado um poema que consistia num diálogo entre duas ninfas: Oréade, que habitava e protegia as montanhas, as grutas e as cavernas, e Náiade, ninfa das águas. A cena passava-se à entrada da gruta de Pã, numa clareira rodeada de pedras e algures situada numa densa floresta. Via-se um riacho que corria para um pequeno lago. Iluminadas pela lua, as duas ninfas dançavam harmoniosamente vestidas de branco enquanto outras colhiam flores e miravam os seus reflexos no espelho de água. A dado momento tudo pára, quando se ouve ao longe a flauta de Pã. Para este momento, Mourey pediu a Debussy «uma verdadeira jóia de sentimento e contida emoção, beleza, ternura, tristeza e poesia». Soariam então fora de cena esses primeiros quatro tons inteiros descendentes e ornamentados que servem de motivo para toda a peça. A ambiguidade tonal prossegue numa mistura de diferentes tipos de escala: escalas compostas por tons inteiros, escalas cromáticas, escalas pentatónicas. Não se esconde uma atração pelo exótico. Quase parece um exercício de improvisação.

 

Rui Campos Leitão