Gaetano Donizetti é um dos compositores mais representativos do bel canto italiano. Entre as óperas célebres que compôs, contam-se Anna Bolena (1830, Milão), Lucia di Lammermoor (1835, Nápoles) e L’elisir d’amore (1832, Milão). A sua produção instrumental é bastante menos conhecida, a maioria composta em início de carreira: concertos, quartetos de cordas, sonatas… e sinfonias. Neste último caso, não são sinfonias clássicas, mas antes sinfonias italianas, no formato de aberturas de ópera. Foi aos vinte anos de idade (em 1817), quando ainda frequentava o Conservatório de Bolonha, que compôs a Sinfonia para Instrumentos de Sopro.
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No início do século XIX em Itália, a música com instrumentos de sopro preenchia uma função social bastante distinta da ópera. Estava associada às bandas – militares e civis – que haviam assumido grande notoriedade nos tempos da ocupação francesa quando se apresentavam em cerimónias públicas oficiais. Após a queda de Napoleão, estas bandas mantiveram-se ativas, mas mais vocacionadas para festas, procissões religiosas e eventos de exaltação patriótica. O ensino destes instrumentos fazia-se em contexto familiar ou em escolas de música frequentadas por jovens das classes populares. Era uma prática musical que não gozava do mesmo prestígio da ópera e da música de câmara. Para lá dos cultos religiosos, estava associada ao exército e às classes menos favorecidas.
Mas a única sinfonia que Donizetti escreveu exclusivamente para instrumentos de sopro teve uma origem diferente desta. Em 1817, o músico estudava com Stanislao Mattei em Bolonha. Anteriormente, aprendera os Fundamentos de Composição em Bergamo, com Simone Mayr. Também aí se familiarizara com aqueles instrumentos, já que Mayr era maestro e diretor da orquestra local. Revisitava agora as mesmas sonoridades, porém com motivações académicas. Era um exercício didático dedicado ao desenvolvimento e consolidação de competências técnicas. Deverá ter sido estreada num exame ou numa festa académica com interpretação de colegas seus.
Em sentido contrário ao da ostentação expressiva característica das óperas, revelava uma forte influência do classicismo vienense, especialmente de Haydn e Mozart. As combinações dos instrumentos é sempre equilibrada, com um contraponto simples entre as diferentes «vozes». As melodias são curtas e elegantes, nos padrões do estilo clássico. O mesmo acontece com a componente harmónica. Apresenta-se assim o jovem Donizetti, ainda muito ligado à tradição clássica, mas já demonstrando a aptidão melódica distintiva que viria a florescer anos mais tarde nos palcos líricos.
Rui Campos Leitão
Imagem: Gaetano Donizetti ca. de 1835 / Gravura de autor desconhecido / Fonte: Wikimedia Commons