Composto em 1949, o Quarteto de Cordas N.º 4 (Op. 83) de Dmitri Chostakovitch é simultaneamente expressão de lamento pelas atrocidades infligidas ao povo judaico e testemunho de uma resistência silenciosa, por parte de um músico que nesse período enfrentava as imposições estéticas e ideológicas do regime soviético. Não espanta, por isso, que só tenha sido estreado em dezembro de 1953, poucos meses passados sobre a morte de Estaline. Curiosamente, foi em 1990 – imediatamente após a queda do muro de Berlim, e quando já se vislumbrava a dissolução da URSS – que o maestro e violetista Rudolf Barshai, amigo e discípulo de Chostakovitch, ampliou o seu alcance por intermédio de uma orquestração que conhecemos hoje pelo nome de Sinfonia de Câmara (Op. 83a).
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É bem conhecida a ambiguidade do percurso criativo de Chostakovitch. Em particular, nos anos que se seguiram à Segunda Grande Guerra compôs obras tão divergentes como a cantata Canção da Floresta, manifesto laudatório da figura de Estaline, e o Concerto para Violino N.º 1, afronta implícita ao regime com recurso a melodias judaicas. O Quarteto de Cordas N.º 4 não contém melodias pré-existentes, mas também não esconde reminiscências da música tradicional judaica, tais como o uso de relações intervalares características e uma disposição ora festiva ora dolente que não ressoava minimamente na Doutrina Cultural de Zhdanov. Reflete-se assim a tensão política e artística que enfrentava. Musicalmente, distingue-se pelas harmonias densas, dissonâncias, interrupções melódicas abruptas, grande agitação rítmica e dinâmica, texturas contrapontísticas muito elaboradas. As repetições obstinadas transmitem inquietude.
A orquestração de Barshai amplia magistralmente todos estes aspetos. No primeiro andamento as cordas entrelaçam uma melodia rústica que evolui lentamente até ao despontar do registo bucólico dos sopros madeiras. O segundo andamento apresenta uma atmosfera mais introspetiva, confiando de início todo o protagonismo ao oboé. Seguem-se mais dois andamentos tocados sem interrupção. Primeiro, com ritmos dançáveis que prontamente se transfiguram em traços grotescos nos sopros metais e nas percussões. Espraia-se depois por desenhos melódicos e rítmicos curtos, mas incisivos. Desemboca, por fim, em solos interrogativos em sucessivos instrumentos. Dissipa-se num silêncio que parece querer dizer tudo aquilo que não podia ser verbalizado.
Rui Campos Leitão
Imagem: Retrato de Dmitri Chostakovitch, por Tahir Salahov / Fonte: Flickr