Robert Schumann compôs a primeira sinfonia na sequência imediata do seu casamento. Procurava afirmar-se profissionalmente e garantir condições materiais necessárias à subsistência de uma família, mas não disfarçava a expressão íntima de um momento pessoal auspicioso. Não por acaso, inscreveu no início da partitura o verso final de um poema de Adolf Böttger: «No vale, a primavera floresce!». Para trás, ficavam «nuvens sombrias» que encobriam «a estrela do amor». Assim se apresenta a «Sinfonia Primavera».
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Robert Schumann foi viver para Leipzig aos dezoito anos de idade para estudar Direito. Porém, o fascínio pela vida musical da cidade acabou por se impor. Estudou com Friedrich Wieck, um dos mais prestigiados professores de piano desse período. A filha deste, que viria a ser a célebre pianista Clara Schumann, era então uma criança. Já em 1835, completados dezasseis anos, o convívio desta com o compositor despontou num «amor proibido». Seguiu-se uma longa disputa até à consumação do casamento, em 1840 – nessa época era exigida a permissão dos pais, independentemente da idade. Friedrich Wieck nunca consentiu a união. Foi, inclusivamente, necessária uma autorização judicial para contornar a recusa. Serve esta nota biográfica para enquadrar o contexto em que a primeira sinfonia de Schumann foi criada. Não se conclua, porém, que se trata de uma criação que resulta somente da inspiração romântica. Essa disposição anímica está lá, é certo, mas também uma elaboração técnica muito cuidada.
A estreia teve lugar na Gewandhaus de Leipzig com direção musical de Felix Mendelssohn no dia 31 de março de 1841. Na ocasião, Clara juntou-se como solista tocando peças de Chopin, Mendelssohn, Scarlatti e do próprio Schumann. A influência de Mendelssohn e a recente descoberta que Schumann fizera da Sinfonia em Dó Maior de Franz Schubert (A Grande) contribuíram para ultrapassar o temor reverencial do legado beethoveniano. Inaugurava-se assim, com sucesso, o reconhecimento público da sua condição de compositor.
A música combina impetuosidade rítmica, desenvoltura melódica e a densidade sonora tão característica das orquestrações de Schumann. Enreda-se em quatro andamentos que coincidem em pequenos motivos melódicos e rítmicos transformados ao longo do tempo. Tudo começa com uma fanfarra cerimoniosa, seguida de um conjunto de blocos que, apesar dos contrastes abruptos, se encadeia com naturalidade num processo cumulativo e transbordante. A tranquilidade do segundo andamento assenta em melodias amplas que percorrem os diferentes naipes da orquestra, cujas notas finais servem de pretexto para a energia esfuziante do Scherzo. Aí destacam-se ritmos de dança incisivos, articulados com clareza. A obra conclui num clima animato e grazioso, em jeito de celebração.
Rui Campos Leitão
Imagem: Robert e Clara Schumann em 1847. Litografia de Eduard Kaiser (1820–1895)