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Petite Symphonie

Charles Gounod é autor de Faust, uma das óperas mais emblemáticas do repertório lírico do século XIX e contributo inestimável para a popularidade do drama de Goethe. Poucos anos antes, em 1853, havia composto a célebre Ave Maria sobre o Prelúdio que introduz o primeiro livro O Cravo Bem Temperado, difundindo assim o culto de J. S. Bach em França. A Petite Symphonie, de 1885, teve um alcance bastante mais modesto, mas constituiu um marco no renascimento da música de câmara para sopros após várias décadas em que estes instrumentos se juntavam, sobretudo, nas bandas filarmónicas.

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A Petite Symphonie é uma composição particularmente representativa do final da carreira Gounod, numa altura em que já se afastara da cena lírica. Dedicava-se então à música sacra e à música instrumental. A sobriedade formal e harmónica, as texturas instrumentais conservadoras, seriam uma espécie de manifesto contra os excessos dramáticos das correntes que se impunham nos palcos de ópera parisienses, fortemente influenciadas pelo drama wagneriano. Dividida em quatro andamentos, espelha o modelo formal das sinfonias clássicas, muito embora o conteúdo harmónico e melódico seja eminentemente romântico. Não por acaso, tem uma instrumentação muito semelhante às serenatas de Mozart. Junta, porém, uma flauta aos pares de oboés, clarinetes, fagotes e trompas. Esta ligeira divergência justifica-se pela circunstância de ter sido o flautista Paul Taffanel quem lhe lançou o desafio. Seria um gesto de gratidão dirigido ao fundador da Société de Musique de Chambre pour Instruments à Vent, instituição criada em Paris em 1879 com a missão de relançar o repertório camerístico para sopros por intermédio de encomendas a compositores. O próprio Taffanel tocou a parte da flauta na ocasião da estreia.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Charles Gounod em 1890 / Fonte: BnF Gallica