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Paixão e Lamentação

Em 1770, Haydn compôs uma sinfonia que se distingue bem no seu catálogo, a N.º 26. Na origem, destinou-se a ser tocada durante a Semana Santa na corte dos Esterházy. Apesar de não integrar as celebrações litúrgicas, incorporava melodias de canto gregoriano próprias da quadra religiosa e que eram familiares para os austríacos que frequentavam as igrejas de então. Por outro lado, apresentava um ímpeto expressivo invulgar à época em obras instrumentais. Estas duas vertentes estão patentes numa inscrição que se lê na partitura manuscrita mais antiga que se lhe conhece: «Passio et Lamentatio».

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No culto católico, as Lamentações são textos do Antigo Testamento lidos ou cantados nos ofícios da Semana Santa. São momentos de reflexão sobre dor, culpa e esperança na misericórdia de Deus. Simbolizam o pesar pela Paixão de Cristo e o sofrimento do Homem. Por esta ordem, explica-se o caráter expressivo e sombrio dos dois primeiros andamentos da Sinfonia N.º 26. Os temas principais são melodias que se acham nos livros de canto litúrgico, muito embora sejam apropriados de maneira subtil ao serem «entoados» pelos sopros e pelos segundos violinos. Aos primeiros violinos, cumpre a função de os embelezar com texturas sonoras acrescidas.

O primeiro andamento discorre numa sucessão de painéis contrastantes, como uma reminiscência do estilo barroco, sem transições. Alterna quadros de grande  dramatismo e azáfama rítmica com um cântico proveniente da Paixão de Cristo Segundo São Marcos, o qual era cantado no evangelho da missa no Domingo de Ramos. Estas páginas terão sido as primeiras que demonstram a afinidade de Haydn com o movimento estético Sturm und Drang. Destacam-se características como as tonalidades menores, tensões harmónicas com recurso a acordes de sétima diminuta, sucessivos retardos decorrentes dos ritmos sincopados entre os violinos dobrados pelo oboés e os contratempos das cordas mais graves e dos fagotes.

No segundo andamento distingue-se mais facilmente o protagonismo da melodia de cantochão. Trata-se de Incipit lamentatio, tradicionalmente cantado durante o Ofício das Lamentações, entre a Quinta-feira Santa e o Sábado de Aleluia. Provém das Lamentações do profeta Jeremias. Expressa o lamento pela destruição de Jerusalém e, simbolicamente, pela Paixão de Cristo. Este «cântico» alterna com pequenos interlúdios.

Estranha-se o facto de esta obra ter somente três andamentos; fica a faltar o Finale que se esperaria de uma sinfonia clássica. Alguns autores conjeturam a possibilidade de se ter perdido. Terá sido, porém, intenção expressa do compositor, por se tratar de uma sinfonia com conteúdo dramático implícito e propósitos diferentes das ocasiões de entretenimento mais correntes na corte. Assim, termina com um Minueto na invulgar tonalidade de Ré Menor, só interrompida pelo tradicional Trio.  Neste caso, não há quaisquer citações de cânticos religiosos. 

 

Rui Campos Leitão

 

 

Imagem: «As Lamentações de Jeremias pela destruição de Jerusalém» / Pintura de Rembrandt (1630) /Fonte: Wikimedia Commons