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Ouvir a Sinfonia do Adeus

Joseph Haydn compôs mais de 100 sinfonias. A N.º 45 foi composta em 1772 e é conhecida como Sinfonia do Adeus, o que se deve ao Adagio que interrompe inesperadamente o último andamento. Este, numa abordagem mais distraída, quase parece ser uma peça autónoma. Mas não o é. Culmina um trajeto cuidadosamente planeado que nos conduz, num plano global, da instabilidade ao repouso, da fúria à extinção, do «mais» ao «menos», com inúmeros apontamentos de perplexidade e hesitação pelo meio.

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Um dos aspetos que mais contribui para o caráter progressivo desta sinfonia é o trabalho desenvolvido sobre os diferentes temas melódicos e rítmicos, a maneira como estes se relacionam entre si, como são recreados em sucessivas variações que conferem unidade a uma partitura que nunca deixa, no entanto, de surpreender. Com efeito, diante de um início de tal modo arrebatador, nunca se adivinharia um Final que se extingue em sorrisos. Há, portanto, muitos mais motivos de interesse nesta sinfonia para lá da insólita (e teatral) retirada dos músicos enquanto decorrem os últimos compassos.

Começa de maneira exaltante, com uma precipitação melódica que parece evitar obsessivamente frases com princípio, meio e fim. Atropelam-se motivos extremamente curtos, ritmos convulsivos, quase mecânicos. Tudo parece apontar a eminência da derrocada. Só ao fim de cerca de três minutos, num pequeno interlúdio, se reconhece uma melodia com contornos relativamente mais amplos. Tal exuberância era rara na época em que foi composta. Deste modo, é precursora da afetação romântica do século XIX, pela maneira como enreda a exuberância barroca – mais estática, por natureza – num discurso fluente e formalmente articulado.

O segundo andamento também se estrutura na Forma Sonata, curiosamente de maneira bastante mais percetível do que no primeiro andamento. Quer isto dizer que, tocado sem interrupções, organiza-se em três secções internas: Exposição, Desenvolvimento e Reexposição. Apesar de se tratar de um andamento lento, distingue-se pela importância confiada à vertente rítmica. Assiste-se à prevalência de acentuações que, em contratempos, instalam uma sensação de hesitação permanente. Destaca-se ainda a curiosidade de os violinos tocarem aqui com a surdina, esse pequeno dispositivo que se coloca sobre as cordas, junto ao cavalete, de maneira a obter uma sonoridade mais velada.

Já no terceiro andamento, e apesar do caráter galante do Minueto, com a sua característica métrica ternária, tem-se uma sensação de inquietude difícil de explicar. Em boa parte, essa impressão resulta da circunstância de o compositor evitar permanentemente um desfecho conclusivo das frases, mantendo o ouvinte sempre suspenso na expectativa de pontuações convincentes, as quais nunca chegam. As trompas destacam-se na secção central, a que chamamos Trio.

No quarto andamento são recuperadas ideias melódicas e rítmicas que se ouviram anteriormente. Divide-se em duas partes: um Presto e um Adagio. De certo modo, parece que o compositor propõe ao ouvinte dois finais alternativos. Se o Presto rematasse com uma cadência conclusiva, a obra poderia terminar ali mesmo. Todavia, nesse instante interpõe-se um silêncio e, tal como um «corpo estranho», tem início uma secção lenta. Este Adagio tem a singular característica de diminuir progressivamente a intensidade sonora, em virtude da sucessiva retirada dos instrumentos. Saem primeiro os sopros, um oboé e uma trompa de cada vez. Depois as cordas, percorrendo os diferentes naipes, até à extinção absoluta. É o oposto do final retumbante que se esperaria de uma sinfonia nesta época.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Joseph Haydn | Gravura de 1820 | Fonte: Bnf Gallica