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Os Concertos para Piano de Liszt

Pode-se estranhar que Franz Liszt, porventura o maior pianista do seu tempo, tenha completado somente dois concertos para piano e esboçado um terceiro. Enquanto virtuoso do instrumento, estava plenamente familiarizado com o género. Mas a composição suscitava-lhe diferentes ansiedades, razão pela qual trabalhou durante cerca de duas décadas nessas partituras. Curiosamente, nunca tocou o Concerto N.º 2 em público, apesar de o ter interpretado na condição de maestro.

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Os dois concertos para piano de Franz Liszt são preciosidades do património histórico deste instrumento. Desvendam em cada gesto soluções técnicas e efeitos expressivos que só estão ao alcance de quem conhece bem os segredos do teclado. Mas revelam também demais aspetos relacionados com o seu posicionamento artístico e intelectual no contexto do panorama cultural de meados do século XIX. Se quiséssemos conhecer «o pianista», seria melhor começar por ouvir as inúmeras transcrições que realizou de obras de outros compositores e com as quais se exibiu por toda a Europa entre 1838 e 1847. Nos Concertos revela-se, sobretudo, o compositor, desde logo na divergência com as convenções da tradição clássica. Esperar-se-ia a sucessão de três andamentos na disposição rápido-lento-rápido; a alternância explícita entre as intervenções da orquestra e do solista; a apresentação dos temas com as respetivas secções de desenvolvimento e reexposição. Na vez disso, assiste-se a uma estrutura bastante fluída, baseada na exploração cíclica de material temático sucessivamente recriado com múltiplos humores, dinâmicas e soluções harmónicas. Os andamentos juntam-se num bloco único, discorrendo sem interrupções. A inspiração deste formato inovador estaria na sua experiência como intérprete, tocando peças que impactavam a plateia num só fôlego, sem o formalismo das pausas.

Ambos os concertos começaram a ser «desenhados» na década de 1830, quando viveu em Itália. Sofreram, depois disso, sucessivas alterações, evoluindo ao longo do tempo em diversos estágios de maturação. O primeiro concerto foi estreado em público em 1855, com Liszt ao piano e Berlioz como maestro. O segundo foi igualmente estreado em Weimar, dois anos mais tarde, mas desta vez com Liszt à frente da orquestra e o seu aluno Hans von Bronsart como solista. Em qualquer dos casos, o formato Concerto transfigura-se em algo que se aproxima de um poema sinfónico. Nenhum dispensa o virtuosismo da parte solista, mas ambos surpreendem pela alternância entre momentos de afetado lirismo e outros de grande aparato, sem sacrifício da fluência discursiva. Os episódios entrelaçam-se em torno do tema principal, numa estrutura cíclica que percorre dinâmicas contrastantes e diferentes efeitos expressivos. A aparência de uma improvisação perpétua é obtida através da economia de recursos, já que tudo entronca em apenas uma ou duas ideias principais. Procura-se em cada instante imergir o ouvinte num estado de encantamento, condicionado por texturas que evoluem num tempo dramaturgicamente calculado. Era música para cinema muito antes do cinema existir.

 

Rui Campos Leitão