Edgard Varèse abandonou Paris em 1915 devido ao contexto conturbado da Primeira Grande Guerra. Contava pouco mais de trinta anos de idade e acreditou que em Nova Iorque encontraria condições mais favoráveis ao desenvolvimento de projetos musicais inovadores e disruptivos. Para lá de compositor, tornou-se também empreendedor. Em 1921 fundou a International Composers’ Guild, instituição pioneira exclusivamente dedicada à promoção da música contemporânea. Tornou-se então uma figura proeminente, compondo obras vanguardistas que são hoje emblemáticas do modernismo musical. Octandre estreou em janeiro de 1924 na Aeolian Hall, na sequência do escândalo provocado por Hyperprism em março do ano anterior, no Klaw Theatre.
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Criativo visionário, Varèse interessava-se pela exploração do som enquanto matéria-prima musical. No combate à dependência das tradições estabelecidas, alinhou desde cedo com o movimento futurista e outras tendências estéticas experimentalistas. Anos mais tarde viria a compor com instrumentos eletrónicos; por exemplo em Déserts (1950) e em Poème électronique (1958). Mas antes, nos anos 1920, ainda buscava novas sonoridades com instrumentos convencionais. Octandre é, precisamente, uma obra de câmara para oito instrumentos que fazem parte da orquestra: flauta, oboé, clarinete, fagote, trompa, trompete, trombone e contrabaixo.
O título provém da botânica e designa uma flor com oito estames, o que coloca em evidência a formação científica do músico e também sugere a transposição poética para as oito partes instrumentais. Mas os desafios colocados ao ouvinte são muitos mais. Na ausência de melodias românticas, previsibilidade rítmica e harmonia tonal, resta identificar referências estruturais e fluxos contínuos que permitam ativar a memória, expectativas que gerem tensão, relaxamento, atribuam propósitos. Tudo começa com uma ideia musical breve, um núcleo que se expande ao longo da peça originando diferentes texturas e variações episódicas. Impõe-se acompanhar a evolução dessas camadas que resultam distintas e simultâneas, cada qual com timbres, ritmos e dinâmicas próprias.
Curiosamente, esta é a única composição de Varèse dividida em andamentos. São três seções com ambientes distintos, desde logo porque arrancam com instrumentos diferentes. Ao «chamamento» do oboé, responde prontamente o clarinete. É essa a célula germinal que se ouvirá de seguida fragmentada e transformada em curtos episódios. O segundo andamento começa com notas repetidas na flauta piccolo. Encadeiam-se motivos esparsos numa grande vivacidade rítmica que enreda todos os instrumentos, a maior parte do tempo em confronto. O fagote apresenta então um curto motivo lamentoso que convida a respirar fundo antes de enfrentar a última secção. As figurações rítmicas e as doze notas da escala dispersam-se num contraponto que expurga e reclama para si o direito à liberdade criativa.
Rui Campos Leitão
Imagem: Retrato de Edgar Varèse em 1924 / pintura de John Sloan / Fonte: Wikimedia Commons