Alexander Glazunov foi uma das figuras mais proeminentes da geração que se seguiu à de Tchaikovsky. É uma referência incontornável do romantismo musical russo. Este seu Concerto para Saxofone e Orquestra de Cordas provém da fase final da sua carreira, numa altura em que já se encontrava exilado em Paris em consequência das intromissões políticas do regime soviético em matéria de Cultura. Reflete a influência das suas origens, mas transparece sobremaneira uma elegância inspirada nas margens do Sena.
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O Saxofone é um instrumento que integrou muito tardiamente o naipe dos sopros-madeiras da orquestra, o que se explica pelo facto de ter sido inventado somente em meados do século XIX. Em particular, Glazunov tinha um grande fascínio pela sonoridade e desenvoltura técnica que lhe são características. Em 1932 havia composto um Quarteto de Saxofones, e foi precisamente na ocasião em que essa obra foi pela primeira vez tocada, num contexto informal na cidade de Paris, que o compositor recebeu o convite para compor um Concerto para este instrumento. Sigurd Rascher, saxofonista alemão que também vivia exilado, mas em Copenhaga, estava presente e terá sido o principal impulsionador da iniciativa. O Concerto acabaria por recuperar algumas das ideias que já haviam sido ensaiadas naquele Quarteto. Foi estreado no dia 26 de novembro de 1934 na cidade sueca de Nyköping. O compositor não teve a oportunidade de assistir e morreu passados menos de dois anos.
Trata-se aqui, porventura, do Concerto para Saxofone mais consensual do repertório clássico. Distingue-se pelo equilíbrio irrepreensível entre as intervenções do solista e da orquestra, neste caso composta exclusivamente por cordas. Apesar de decorrer num único andamento, permite que nele se distingam três secções que correspondem ao formato mais convencional do Concerto. É, simultaneamente, uma espécie de rapsódia repleta de contrastes que balançam entre temas melódicos dolentes e momentos de grandes extroversão.
O solista apresenta de início o tema melódico, enredando depois as suas nuances tímbricas na textura velada das cordas. A música ganha força à medida em que vão aparecendo novas melodias. A parte solística torna-se progressivamente mais virtuosa, com passagens rápidas, precipitando-se em escalas e impulsos intervalares repentinos. Intromete-se a dada altura um momento reflexivo, com respirações amplas e cuidadas. É então que Glazunov evidencia as suas competências em matéria de escrita orquestral. É disso corolário a elaboração contrapontística, tão característica do seu estilo, que se ouve no seguimento de um «monólogo» (a Coda) do solista. Irrompem, por fim, ritmos sincopados que colocam os diferentes naipes da orquestra em diálogo. A «última palavra» pertence, todavia, ao saxofone.
Rui Campos Leitão