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O Duplo Concerto de Britten

Antes do Concerto para Violino, Viola e Orquestra, em 1932, Benjamin Britten já tinha composto várias peças para piano, canções, obras corais, música de câmara para instrumentações diversas, um bailado para pequena orquestra… e contava apenas dezoito anos de idade! Tal precocidade não se compara às de Mozart e Mendelssohn, mas não deixava de surpreender. Asfixiado pelo conservadorismo do meio musical inglês, Britten distinguia-se pela vontade de conhecer e experimentar diferentes estilos e formas musicais. Estudava havia dois anos no Royal College of Music de Londres, mas, além do Concerto para Viola de William Walton, esta obra reflete a influência da Sinfonia Concertante de Mozart e da música de Stravinsky, a qual conhecera recentemente.

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Não espanta que o jovem Britten se tenha interessado pela peculiar combinação da viola com o violino num concerto com orquestra. Além de tocar admiravelmente piano, estudou viola desde criança, em Norwich, e o seu principal mestre e mentor desde 1927, Frank Bridge, também era compositor e violetista. Segundo o seu diário, a maior parte do Duplo Concerto foi composta em cerca de dois meses, ficando a aguardar uma revisão que nunca chegou. É, portanto, uma obra inacabada, não se sabe ao certo porquê. Apesar do incentivo de outro professor, John Ireland, talvez estivesse descontente com o resultado, deixando o projeto de lado. Talvez a fraca qualidade da orquestra disponível no conservatório o tenha desencorajado. Talvez se tenha entusiasmado com a criação imediata da Sinfonietta, a qual veio a reconhecer como Opus 1. Certo é que nunca chegou a ouvir a partitura tocada por uma orquestra. Esta permaneceu inédita até 1997, quando foi completada pelo compositor Colin Matthews, seu assistente no final da vida. A estreia aconteceu no Festival de Aldeburgh desse ano.

Para lá da expressividade e do virtuosismo, Britten colocou os solistas em diálogo, de maneira a explorar as interações contrapontísticas. Afastou-se também do lirismo romântico, das proposições estéticas nacionalistas e das minudências impressionistas. À predisposição neoclássica, juntou experimentações harmónicas ousadas e uma grande intensidade rítmica, características a que a música do bailado Petrushka de Stravinsky não será alheia. A orquestração é sóbria, permitindo aos solistas evidenciarem-se de princípio ao fim. Baseou o primeiro andamento numa invocação ascendente da trompa reminiscente das antigas caçadas. Esta ecoa nos solistas, servindo como elemento agregador. O andamento lento tem um caráter dolente. Em estilo rapsódico, percorre variações sobre temas melódicos enfáticos, mas com fluidez e desenvoltura. O último andamento decorre sobre motivos esparsos, sempre com impetuosidade rítmica. O anunciado epílogo é inusitadamente interrompido pela memória longínqua da invocação inicial, desta vez na flauta, conduzindo a um final misteriosamente tranquilo.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Foto de Piccadilly Circus em 1932 / Fonte: Wikimedia Commons