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O Concerto para Piano N.º 3 de Rachmaninov

Datado de 1909, o Concerto para Piano N.º 3 de Sergei Rachmaninov é uma obra estruturalmente imponente e performativamente espetacular. Estas duas vertentes harmonizam-se, no caso, por se tratar de um grande compositor que compôs pensando em si mesmo na condição de solista virtuoso – era um pianista extraordinário. Distingue-se bem da afetação pungente do concerto anterior, completado oito anos antes, e que se tornou bastante mais popular. Em vez disso, a expressão romântica é toda ela investida no arrebatamento da atenção (e da respiração) do ouvinte, desde o primeiro até ao último segundo. É impossível encará-lo de ânimo leve.

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Quando Rachmaninov se exilou nos EUA, na sequência da Revolução Bolchevique, já contava mais de quarenta anos de idade – pertencia a uma família de aristocratas cujos bens seriam confiscados pelo regime soviético. A partir de então, subsistiu praticamente como pianista. Para trás, deixava uma sólida carreira também como maestro e compositor. Já antes, havia feito duas digressões nos EUA para internacionalizar o seu prestígio e tirar proveitos financeiros. Com efeito, no início do século XX os artistas de destaque eram ali muito mais bem remunerados do que na Rússia. O Concerto para Piano N.º 3 foi composto, precisamente, para a primeira dessas digressões. Foi concluído sob pressão antes mesmo de embarcar na viagem. Estreou no final de novembro de 1909 com a Orquestra Sinfónica de Nova Iorque sob direção de Walter Damrosch. Em meados de janeiro seria novamente interpretado em Nova Iorque, dessa vez com a direção de Gustav Mahler.

Apresenta-se aqui uma breve descrição dos elementos-chave e dos percursos traçados ao longo dos três andamentos. Independentemente da afetação emocional e da imagética que uma obra desta natureza sempre desperta, caso o ouvinte esteja municiado com a consciência dos tópicos a partir dos quais tudo germina e acontece, a experiência resulta invariavelmente enriquecida. Genericamente, o concerto é atravessado por uma célula rítmica recorrente que desempenha uma função agregadora. Para facilitar a sua identificação, basta prestar atenção aos primeiros dois compassos, que são tocados pela orquestra. Este é um fator de coesão crucial. Mas vê-se ainda reforçado pelo desenvolvimento cíclico das melodias. Quer isto dizer que os conteúdos musicais mais relevantes do primeiro andamento reaparecem, de uma maneira ou de outra, sucessivamente transformados e recriados nos andamentos seguintes. É como se cada momento fosse consequência natural daquilo que se ouviu imediatamente antes.

Ao contrário do Concerto N.º 2, compete ao piano expor de imediato o tema inicial; uma melodia reminescente da liturgia ortodoxa russa. O segundo tema aparecerá mais adiante. Ambos se instalam em conflito com uma base rítmica inquietante. Depois disso, assiste-se a um longo desenvolvimento baseado na célula rítmica germinal e no primeiro tema, o qual ressurge substancialmente transformado. Segue-se a cadência do solista. As madeiras interrompem para dar lugar a uma breve reexposição que mais se parece com uma coda. Termina abruptamente. Passados ao segundo andamento, prossegue a disposição cíclica. Numa primeira secção, as cordas e as madeiras apresentam um novo tema que é seguidamente trabalhado pelo solista em duas variações. Interpõem-se depois duas secções distintas. Sempre com caráter cíclico, ambas recuperam materiais do primeiro andamento, embora de maneira contrastante. Termina com uma transição que liga diretamente ao último andamento, tal como fazia Mendelssohn nos seus concertos. Irrompe então uma derivação do primeiro padrão rítmico, que evolui em estilo rapsódico e dançável. Um novo desenvolvimento (bastante longo) consiste agora numa sequência de episódios que busca coesão na exploração obstinada dos mesmos materiais temáticos. Tudo culmina numa conclusão dividida em duas partes que evocam os temas apresentados de início.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Rachmaninov em Ivanovka, em 1910, trabalhando na revisão do Concerto para Piano N.º 3 (Fonte: Wikimedia Commons)