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O Concerto para Clarinete N.º 2 de Weber

No dia 5 de abril de 1811 Carl Maria von Weber apresentou-se na corte de Munique com um programa inteiramente preenchido por obras suas, entre as quais a Sinfonia N.º 1. Mas foi a estreia do Concertino Op. 26 que mereceu maior aplauso, na interpretação do clarinetista virtuoso Heinrich Bärmann. Abriam-se assim as portas do Palácio Nymphenburg. Dois meses mais tarde estreou no mesmo palco duas obras de maior fôlego, dois Concertos para Clarinete. O segundo tornou-se num tour de force para os solistas.

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Para lá das óperas que o tornaram célebre – em particular Der Freischütz e Oberon Carl Maria von Weber compôs inúmeras canções, peças para piano, música de câmara, duas sinfonias e vários concertos, entre eles dois para piano e outros dois para clarinete. A maior parte destas obras instrumentais foi composta no início da carreira, quando ainda fazia longas digressões na condição de pianista pelos principados germânicos. Foi numa dessas viagens que conheceu Heinrich Bärmann (1784-1847), clarinetista da Orquestra da Corte de Munique, à época a mais fiel herdeira da prestigiada tradição orquestral de Mannheim. Chegado à capital bávara, caiu nas graças do ministro do Rei Maximiliano I, que logo lhe pediu para escrever uma pequena obra concertante para clarinete – seria o Concertino Op. 26. De tal forma foi aplaudido, que o jovem compositor (apenas 24 anos de idade) recebeu a encomenda de dois verdadeiros concertos para o mesmo instrumento. Passadas poucas semanas tinha-os completado. Foram ambos dedicados a Bärmann, que sempre os tocou ao longa da vida; desde logo no ano seguinte em cidades como Dresden, Leipzig e Berlim.

O clarinete era sem dúvida o instrumento de sopro preferido de Weber. Permitia-lhe explorar uma ampla gama expressiva, desde o lamento sombrio até à alegria mais exuberante. Essa apetência já se havia revelado no Concertino, cuja estrutura consistia num Adagio seguido de tema com variações. À semelhança do Concerto N.º 1, também o N.º 2 se divide nos tradicionais três andamentos. Mas vai mais além. É hoje considerado uma verdadeira lição de escrita para o clarinete, repleto de passagens virtuosísticas e ornamentos melódicos cuidadosamente adaptados aos recursos idiomáticos do instrumento. Através de grandes saltos intervalares, a primeiras frases do solista demonstram bem a disposição para explorar todos os registos, desde os agudos até aos graves. Destaca-se ainda a influência do estilo operático; o andamento central reflete bem os créditos que Weber tinha neste domínio. Também a orquestração se distingue, pelos entretidos «diálogos» que os diferentes naipes estabelecem com o solista. Sem prejuízo de uma clareza formal afim aos princípios clássicos, nele se vislumbra o despontar do estilo romântico em aspetos como a ênfase expressiva, a ousadia harmónica e a desenvoltura dos sucessivos temas melódicos.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Retrato de Carl Maria von Weber em 1821 / Caroline Bardua (1781–1864) / Fonte Wikimedia Commons