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Música de Intervenção

A Sinfonia do Adeus de Joseph Haydn é música de protesto, um simpático protesto que se destinava a convencer o príncipe Nikolaus a não manter a orquestra por mais tempo no Palácio Eszterháza. A estadia, que já se prolongava havia longos meses, mantinha os músicos afastados das suas famílias. Então, Haydn consentiu em traduzir em música esse descontentamento. Numa época em que as instituições sindicais eram uma miragem, tal reivindicação só seria possível com muita elegância e bom humor. Assim aconteceu.

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Quando em 1762 o príncipe Paul Anton Eszterházy faleceu, sucedeu-lhe o irmão Nikolaus. Também ele melómano, veio a proporcionar a Haydn todas as condições para que viesse a afirmar-se como um dos compositores mais influentes de toda a História da Música. Porém, nem tudo foram rosas. O entusiasmo que o príncipe tinha pela música era partilhado com o gosto pela caça, pelo que os músicos da sua orquestra eram forçados a manter-se afastados das famílias durante o período do ano em que o clima era mais ameno. Instalavam-se então no Palácio Eszterháza, um gigantesco palacete de verão com mais de uma centena de quartos que pertencia à poderosa família Eszterházy, cuja linhagem aristocrática remontava à Idade Média e mantinha grande influência e prestígio durante o Império Austro-Húngaro. Estava situado numa região que hoje pertence à Hungria, nas imediações da localidade de Fertőd, a cerca de 50 quilómetros da cidade de Eisenstadt, e a 100 de Viena, onde se achavam as duas outras residências onde permaneciam ao longo do ano.

Em 1772 a construção do palácio era bastante recente, e o «verão» teimava em estender-se – até novembro! Compreende-se, por isso, a insatisfação dos músicos, que se mantinham ali praticamente isolados e não estavam autorizados a receber convidados durante todo aquele tempo. Foi esse o descontentamento que partilharam com o Mestre de Capela, Joseph Haydn, o superior hierárquico imediato. Em resposta, o compositor decidiu compor uma nova sinfonia para o príncipe, mas fazendo-a acompanhar de uma manifestação de protesto. Na vez de um final categórico e concludente, a sinfonia terminava inesperadamente com a retirada progressiva dos músicos. Cada um deles, uma vez terminada a sua parte, apagava a vela que iluminava a estante, pegava no instrumento e saía. O palco ficava às escuras e sem ninguém. É por isso que esta sinfonia ficou conhecida pelo nome de Sinfonia do Adeus. Presume-se que todos tenham partido para Eisenstadt ou Viena no dia seguinte.

 

Rui Campos Leitão

 

Imagem: Projeto do Castelo Esterházy em Fertőd (Hungria). Desenho guardado nos Arquivos da Família Esterházy em Eisenstadt, Áustria. 1774, provavelmente por Nicolaus Jacoby | Fonte: Wikimedia Commons